domingo, 15 de dezembro de 2013

Novo Blog, Nova História!


Convido vocês a visitarem meu novo Blog e acompanharem a produção de mais um livro.

http://aprincesadanyeoespelhodaverdade.blogspot.com.br/

Aguardo vocês lá!

Angela Lira

quinta-feira, 28 de novembro de 2013

11º capítulo Limões e limonada



“Em outubro de 1989, depois de quatro meses a base de um tratamento alternativo em São Paulo, Cazuza partiu novamente para Boston, onde ficou internado até março de 1990 voltando assim para o Rio de Janeiro. No dia 7 de julho de 1990, Cazuza morre aos 32 anos por um choque séptico causado pela AIDS. No enterro compareceram mais de mil pessoas, entre parentes, amigos e fãs. O caixão, coberto de flores e lacrado, foi levado à sepultura pelos ex-companheiros do Barão Vermelho. Cazuza foi enterrado no cemitério São João Batista, no Rio de Janeiro. Sobre o tampo de Mármore do túmulo aparece o título de seu último grande sucesso, "O Tempo Não Para", e as datas de seu nascimento e morte. Em sua lápide nada consta além de seu famoso codinome”                           
O Brasil chorava a  morte de um grande Ídolo da música. Os pais do ídolo choravam a perca de um filho.
Um homem que poderia ter tudo, mas foi pego de surpresa pelas ironias da vida e de nossos atos.
Flora estava novamente internada. 
Os exames em busca de um doador em sua família, não revelaram ninguém compatível. A medicação e o tratamento estavam sendo feito, mas a doença era silenciosa, rápida e devastadora.
As visitas das amigas eram uma constante e quando estava em casa, ela procurava levar sua vida, normalmente. 
Júlia pedira permissão aos pais para levar os resumos das aulas e estudar com a amiga aos sábados quando ela não pudesse ir a aula.
Uma campanha em busca de doadores fora iniciada pelas amigas e o Grêmio da Escola. A cada tentativa uma sombra de esperança. Todos fizeram os exames. Até mesmo a pequena Nila, por pedido de Júlia.
Era sábado. A semana fora tão agitada e corrida, com a chegada do recesso escolar.
Estava no portão da casa de Sr Ferreira olhando a rua, enquanto a noite  não chegava.
Fechou os olhos e suspirou. Ano passado nessa data estava na casa de suas avó...
Alguém parou a seu lado e tocou seu braço.
- Oi Júlia! – falou Angela.
- Oi Angela! – cumprimentou dando um abraço na amiga. – A quanto tempo... anda lendo muito?
- Como me afastar dos livros?rsrsrs sem eles eu não vivo... – e olhando atentamente Júlia, completou – você está bem?
- Eu? Sim, sim rsrs estou apenas preocupada... minha amiga está com Leucemia.
- Hum, já li a respeito... mas qual o problema? Ela não está fazendo o tratamento?
- Está sim, mas os médicos disseram que a doença está muito avançada e somente um transplante ajudasse. Contudo, não estamos conseguindo doador...
- Sabe, tudo tem seu tempo! - começou olhando sério para Júlia - Deus tem grandes planos para cada um de nós, mas muitas vezes só sabemos o resultado de suas ações muito tempo depois e algumas vezes nem chegamos a saber os resultados...
- Pois é, Eclesiastes 3 e Filipenses 4 têm sido minhas leituras constantes.
- Não é apenas ler Júlia. Aprender, dói! crescer e se tornar adulto, dói! a vida é dolorosa! mas também tem seus encantos, seus momentos...
- Olha só quem fala...
- Não sou eu apenas, Jú, estou aprendendo, tenho meus altos e baixos também. Poderia me lamentar pelo resto da vida! tem dias que nem quero sair da cama...
- Sei como é...
- Mas não posso perder a esperança, a fé...
Júlia lembrou de Leo e jogo de Xadrez. 
Quanto tempo não o via, não participava da aula de teatro...
- Se a vida lhe der limões, você tem de fazer uma limonada, sacou?
- Ham – piscou Júlia sem entender. – Limonada?
- Pois é rsrsrs Você machucou suas mãos, mas o que você está fazendo? Chorando ou aprendendo algo novo?
- Bom, eu... bom, eu... – ai veio o estalo – Pollyana!
- Haham Pollyana e o jogo do contente.- sorriu Angela.
- Mas isso não funciona sempre... quer dizer os mendigos, os doentes...
- Certo, ninguém vai ficar rindo disso, Jú!  você vai levar o riso até eles, a esperança, Cristo.
- Eu! Como?
- Ora, ora não é você aqui nesse jornal?
E estendeu uma reportagem para Júlia do Diário de Pernambuco que estava colada em seu caderno.
“ Dois alunos, da Escola Municipal Pedro Augusto, aceitaram o desafio do grupo de teatro e  vestidos de mendigos vagaram pelas ruas do Recife nesse mês de maio.
 A aluna Júlia, muito tímida,comentou: a ideia foi do Leo! Jamais poderia pensar em algo assim! Uma garota de rua chegou a dividir seu pão comigo... aquilo me deixou sem ação.
 Leo, como prefere ser chamado, acrescentou, com os olhos marejados de lágrimas: certa noite ao voltar pra casa encontrei um bêbado na rua. Aquilo doeu em meu coração, pois muitos passavam por ele sem reparar e outros chutavam, batiam... teve um cara  que jogou um balde de água nele! tive pena, pois todos somos humanos. Levantei o homem e fui perguntando até chegar a casa dele, onde vi que, realmente, somos todos iguais. A sua esposa estava lá desesperada, sem notícias e os filhos dele já estavam dormindo. Ela contou que ele tinha sido demitido e estava desesperada. Nunca tinha feito aquilo antes, mas depois de perder o emprego e dinheiro da poupança no confisco das cadernetas , resolveu dar cabo de sua vida. Vi meu pai, naquele homem desesperado. Ele que poderia ter sido morto por maloqueiros de rua....”  
Terminou de ler e  ficou olhando o velho caderno em suas mãos, antes de entregar de volta. Notou outros recortes e alguns rabiscos, parecia com seu diário.
- Isso foi ideia do Leo...
- E qual a sua ideia para a vida?- falou sem rodeios- Diga-me e talvez eu escreva sua história um dia rsrsrs
- Sei... e quem vai querer ler? quem vai querer saber da  História de Júlia? Ham?
- Quem sabe? Muita gente acredito... - falou pensativa.
- Hum... quer saber de uma coisa? você me deu uma ideia... - falou sorrindo misteriosamente para Angela.
- Qual?
- Você vai saber... vou fazer uma limonada!
- Bem docinha?
- Quem sabe? – e olhando sério para a amiga, convidou:
- Você faria um teste de sangue para ser doadora?
- Faria sim. É só me dizer onde.
As duas acertaram os detalhes e entraram juntas. Angela queria conversar com a avó e convidou Júlia para ir junto.
Naquela noite pegou o diário esquecido em um canto e escreveu:

14/07/1990

Querido Diário

Não me esqueci de você!
Apenas o fim desse semestre estava me deixando hiper-atarefada.
 Flora continua o tratamento e até agora não achamos um doador. Conversei com a Angela e ela topou fazer o teste também.
Acredita que, justamente, ela me deu a luz sobre o que tenho de fazer na minha vida... estou pedindo a Deus que esta seja sua vontade, ainda não tenho certeza, sabe, e não quero comentar com ninguém. Perdoe-me, mas nem você pode saber...
Conversamos muito hoje, a Angela tem cada uma rsrsrs imagine que ela disse que ia escrever minha história hahaha logo a minha?
Quem iria gostar de ler algo mim?
As férias começaram e hoje me dei conta que nunca mais vi o Leo, desde o desafio...
Na igreja, as coisas estão bem paradas sem o coro infantil.
Queria me sentir como antes, quando ia a igreja e sabia o que fazer, agora parece que Deus não quer falar comigo, algo dentro de mim está diferente...
Será que minha fé acabou?
Se é isso, tenho de juntar todos os limões e fazer uma limonada bem docinha, como a Angela falou, pra renovar minha esperança e fé!

Ps: Brasil perdeu a copa da Itália ( nem passou das oitavas) e a Alemanha é a ganhou

Será que um dia verei o Brasil erguer a taça?

10º capítulo Flora

Caía uma chuva leve e refrescante. Júlia se dirigia à casa de Graça e Flora, já que Gema não estava disposta a ir hoje à aula.
O caminho da Avenida Central, como era chamada a rua que levava ao metrô, era reto com calçada dos dois lados, mas os pedestres tinham que desviar de monturos diversos, espalhados nas calçadas: lixo, restos de comida, moveis velhos, entulhos de  sobras de construção, galhos de plantas... de um lado,
 onde as pessoas deixavam os entulhos, um longo paredão se estendia até a estação e copas frondosas de primavera e coração-de-homem pendia de dentro do metrô para a calçada, intercalando o caminho de entulhos e flores. Do outro lado ruas verticais, com nomes populares de diversas origens.
Flora e Graça moravam na penúltima rua.
Júlia sempre percorria o caminho debaixo do sol escaldante, intensificado pelo asfalto e acompanhado do mau cheiro do lixo. Contudo, o que lhe chamava atenção não era o cheiro e o calor, mas as flores, principalmente o coração-de-homem, que dependendo do clima, floresciam com tonalidades diferentes.
O Coque tinha sua beleza e feiura, dependia dos olhos do observador. 
Lembrou das palavras de Sr Ferreira: “da Lama saíram as casas e das casas a vida multiplicou-se em ruas, mercado, padaria, escola... Hoje esse chão é um dos mais cobiçados do Recife, pois está entre o Centro  e a Orla de Recife. Daqui vamos a qualquer lugar a pé!”.
Seu aniversário seria como todos os outros, apenas uma data para contar um ano a mais de vida.Sem festas ou presentes. E este ano sem abraços e beijos também. Fora dormir cedo e ninguém a acordou.
A chuva era fraca. Seus pingos suaves molhavam o chão e subia o cheiro de terra molhada e úmida.
A rua onde as meninas moravam, estava sendo asfaltada com paralelepípedos. Lembrava-se de quando construíram a Vila. Naquele local antes se estendia viveiros de caranguejo e peixe, feitos de lama pelos moradores das casas de tábuas e palafitas. No lugar do metrô, existira uma linha de trem. 
O muro separou a comunidade em duas. Famílias que antes atravessavam a linha do trem para pegar o viaduto ou visitar seus parentes, agora tinham de fazer um percurso mais longo.
Flora estava encostada a grade, cabeça baixa, seus cabelos curtos cobertos com um lenço, como o que Cazuza passara a usar. Era sua amiga há tanto tempo, mas nunca notara sua admiração por esse cantor ou quanto estava magra e abatida, nesses últimos dias. Ela sempre fora muito reservada  . As amigas de Júlia eram mais velhas que ela. Graça completara 16 anos em fevereiro e Gema em março, Flora ainda tinha 15 anos, mas em junho completaria 16 anos também.
Lembrava-se do dia em que se conheceram na 3ª série.
As três garotas já eram amigas de outra Escola e assim como Júlia, foram transferidas para o Costa Porto. Júlia era a mais nova, pois a professora descobrira que ela já sabia ler e escrever e por fazer aniversário no começo do ano, não teve problema. Se não fosse por isso estaria estudando na mesma sala que Angela.
  Aproximou-se da amiga.
 Algo estava errado...
- Flora?
- Oi Jú! Chegou cedo...- Flora abriu a grade e deu passagem a Júlia – Vou avisar a mamãe e Dinho que você chegou. – E entrou, deixando Julia na varanda.
- Gema não vai a aula hoje, por isso cheguei mais cedo... – começou a explicar, mas a amiga já tinha entrado e não parecia ter ouvido.
Voltou pouco depois, com a sombrinha e os livros, seguida da mãe que perguntava se ela tinha certeza de algo.
- Benção mãe!- respondeu passando rápido por Júlia.
- Se você tem certeza minha filha... Deus te abençoe! – e entrou.
Júlia ainda ouviu Dinho reclamando que isso não tava certo que ia levá-la a força e D. Maria dizendo pra ele ter calma, que estava tudo certo.
Graça também não ia à aula hoje. 
Caminharam um bom pedaço em silêncio, quando Júlia resolveu quebrar o silêncio.
- As meninas vão perder aula hoje...
- É mesmo... – respondeu sem animo e voltou a ficar muda. Ela sempre fora calada, mas tinha algo errado.
- Flora o que está acontecendo?
A amiga lançou um olhar triste e balançou a cabeça de um lado para o outro.
- Nada Jú...
- Olha só: "nada" não é resposta- falou parando de andar- você está escondendo algo de mim...as meninas estão escondendo algo. Pensa que não percebi? Os cochichos e quando me aproximo, param de falar.... pensei que fossemos amigas!
- Jú, não tá havendo nada... – respondeu quase chorando- é impressão sua!
- Pois acredito que esteja sim! E não sei se quero ser amiga de pessoas que escondem as coisas que pensam de mim, que falam por minhas costas...
- Você não ouviu? Eu disse que não é com você! – falou baixo. Tentando acalmar a amiga. 
A chuva engrossava um pouco, Júlia sentiu que estava perdendo o controle de novo. Respirou fundo, controlando seu turbilhão de sentimentos. Flora não tinha nada a ver com isso, estava ali ao seu lado.
- Mas até sua mãe e seu irmão não querem que eu ande mais com você!
Flora a encarou e balançando a cabeça de novo voltou a andar depressa, quase correndo, deixando Júlia ali.
- Flora!- Júlia chamou, mas a amiga continuou e ao atravessar a rua o carro bateu nela jogando-a na calçada.
O motorista vinha em baixa velocidade, o que foi a sorte da amiga. Parou o carro e saiu gritando com  elas e dizendo que não tinha culpa. 
Júlia estava toda molhada ao lado da amiga, a sombrinha jogada na calçada, os livros jogados na pista, pronta para levantar a amiga, quando o motorista gritou para não mexer nela.
*****
O destino às vezes nos põe exatamente onde deveríamos estar ou como costumam dizer:  Deus escreve certo por linhas tortas.
Júlia estava no corredor, muito cabisbaixa, chorando baixo, quando a mãe e o irmão de Flora chegaram.
- Minha filha Júlia? Onde está minha filha?
- D. Maria me perdoe eueu não... – e voltou a chorar. A senhora a abraçou e Dinho resmungou:
- Tá vendo! Ela devia ter vindo com a gente! Precisou ser atropelada para vir ao médico arff!!
- Dinho, pare de falar assim! A culpa foi minha! Briguei com Flora. Queria saber o que tava acontecendo, porque estavam sempre cochichando e falando as minhas costas. Ela atravessou a rua sem olhar e... eu sou a culpada!! Sempre sou a culpada! – abraçou D. Maria e começou a chorar de novo.
-Shiiii ninguém tem culpa Júlia! As meninas não queriam lhe preocupar, só isso... a Flora não está se sentido bem a dias, mas não queria preocupar você que andava tão triste...
- Eu sou uma egoísta! Sou uma cretina egoísta!
- Pare com isso Júlia! – ordenou D. Maria – não é culpa sua. Vamos, vamos!- falou enxugando as lágrimas de Júlia – Você tem de me dizer onde ela está, vou pedir ao médicos para fazerem um exame nela e saberemos o que ela tem...
O motorista as levara para o Hospital da Restauração. A emergência era um filme de terror, gente entrando com os mais diversos ferimentos, morrendo ou já morto. Mas os médicos e enfermeiros, contudo, eram ótimos e assim que chegaram, atenderam Flora que estava desmaiada, levando-a para dentro. Júlia não pudera ir junto e o motorista insistira em ficar e ligar para alguém da família.  
Ligaram para a vizinha de Flora e avisaram do acidente.
Júlia apontou para o motorista que conversava com um policial e D. Maria foi até lá.
Flora estava muito doente à quase dois meses. Nesse período, nem mesmo sua mãe conseguira levá-la ao hospital. 
A perca de peso, as insônias, náuseas e dores no corpo e cabeça eram constantes. Durante a convalescênça de Júlia as amigas guardaram segredo sobre o estado de Flora, mas um acidente a colocara exatamente onde deveria estar : no Hospital. 
O acidente não fora grave, apenas uma batida leve, pois o motorista andava a baixa velocidade. Contudo os exames mostraram que algo mais grave estava acontecendo: Flora estava com leucemia.

18/05/1990

Querido Diário,

 Flora está com leucemia e assim como seu ídolo, Cazuza que tem HIV, está muito doente.
Não sabia que ela era fã de Cazuza, não sabia que ela estava doente, não sabia que ela tinha medo de ser a mesma doença do Cantor, não sabia que minhas amigas me escondiam as coisas, não sabia que era tão egoísta, tão mesquinha, tão inútil...
Quem são minhas amigas de verdade?
Quem sou eu de verdade?
Depois do desafio, senti que devia para de me preocupar comigo mesma apenas, que existe um mundo inteiro precisando de ajuda, mas na primeira oportunidade que tenho de ser útil, sou  um monstro egoísta e brigo com minha amiga , provocando seu acidente...
Quais outras lições Deus tem para mim?
Perdão Deus! Por não ouvir, por não entender, por ser quem sou!
 Ajude-me, por favor, a mudar, a ajudar, a acharmos um doador para Flora...
Ainda não entendi o que queres de mim?
Não consigo ouvir...
O que é preciso fazer ?
O que queres de mim Pai?

sábado, 23 de novembro de 2013

9º capítulo Grupo de teatro EMPA



Estava calada desde o retorno do Acampamento. A social de encerramento fora muito boa, conversou muito com a Angela e na volta Celine e Raul já estavam conversando com ela também, quer dizer eles falavam e gesticulavam e ela calada sorria simpática e comentava algumas coisas.
Seus irmãos voltaram super queimados do sol, mas muito contentes. Enfim, por que retornar a velha tristeza? Não conseguia. Ela bateu a sua porta assim que o ônibus chegou a Igreja e  o sonho do acampamento ficou pra trás.
Continuava sem querer conversa com suas amigas, mas como fugir? Eram suas amigas! Estudavam com ela, voltavam da escola juntas, faziam trabalhos juntas... tudo bem que ultimamente devido a seu silêncio elas estavam caladas, até afastadas, mas nunca a deixavam sozinha só durante os ensaios do Grupo de teatro da Escola Municipal Pedro Augusto ou EMPA.
Andavam aos cochichos pelos cantos, mas quando se aproximava silenciavam, mudavam de assunto. Como agora quando ao se afastar para beber água e ficara observando. Estava acontecendo algo e suas amigas não queriam perturbá-la. Também não sabia se queria ser perturbada nesse momento, talvez se conversa com Flora ou Gema a sós, elas abrissem  o jogo.
Aproximou-se das amigas e pegou seu material avisando que ia até o Grêmio, saber maiores detalhes sobre o Desafio.
Entrou sem bater na sala do Grêmio. A porta estava aberta e, como sempre, alguém estava sentado no birô. Era uma sala pequena com um birô, um armário e várias prateleiras lotadas de troféus e livros.
Nunca tinha visto aquele rapaz. Tinha os cabelos cortados bem curtos, usava roupas simples e estava concentrado no tabuleiro de xadrez a sua frente. Percebendo a entrada de Júlia levantou a cabeça e sorriu. Foi aquele sorriso, com covinhas que a fez sentir seu coração bater forte.
- Ooo-oi! Eeeu vim saber mais sobre o desafio...-  falou gaguejando. Detestava quando isso acontecia.
O rapaz levantou e aproximou-se de Júlia estendendo a mão.
- Meu nome é Leo, sou da direção do Grêmio. Acredito que não nos conhecemos.
- Soou a Júlia...- e apertou a mão dele. O que a deixou totalmente sem fôlego foi quando ele segurou sua mão, simplesmente levou-a aos lábios  e beijando. Aquilo a deixou sem atitude , queria fugir dali , pois sabia que estava com as faces coradas de vergonha.
- Hum Júlia... Bonito nome... – falou como se não tivesse acontecido nada demais e voltou ao birô , perguntando:
- Sabe jogar xadrez?
“ Como é que é? O cara beija minha mão e quer saber se jogo xadrez? Deve ser maluco, além de lindo, quer dizer além de sonso...”
- O pessoal do teatro tá chegando, mas enquanto isso podíamos jogar uma partida de xadrez...- continuou falando e olhando o tabuleiro.
- Bom, é que eu não sei se...
- Você não sabe jogar? Ora Júlia! Eu te ensino, venha. – falou apontando a cadeira na frente do birô e sem esperar resposta desarrumou as pedras do jogo pondo-as  na posição inicial.
- O Xadrez é um jogo de raciocínio e estratégia... nos faz refletir sobre a vida e os passos que damos ao escolher certos caminhos. O resultado de cada jogada, pode ser o sucesso ou a derrota... – falava enquanto arrumava as peças e Júlia não teve outra alternativa além de sentar , ouvir e aprender.
- Vou jogar com você? Com certeza já sei que serei derrotada...
Ele parou de falar por um momento e a encarou dizendo:
- Hum esse é um detalhe importante... Se você sabe que o destino de toda vida é a morte, então por que sai todo dia da cama, para fazer coisas que não resultarão em um destino diferente?
- Eu...
- Esperança, Júlia, Desafio, Fé e força de vontade! – falou sorrindo e mostrando as covinhas – porque a morte é apenas uma passagem, algo que nos leva a uma nova vida, assim como o bebê que está no útero e tem medo de nascer por não saber o que vem depois...
Percebendo a confusão de Júlia, explicou:
- Meu tio fez esse tabuleiro de madeira e quando me deu também falei o mesmo que você. Mas ele me respondeu o que acabei de te falar e desde então, encaro meu medo da derrota, pois sempre tenho esperança de um dia vencer.
- Hãaã eu... – olhou aquele rapaz que a desafiava e perturbava, estava pronta para sair e desaparecer dali, quando sentiu algo em seu interior. O mesmo sentimento que tivera ao dar um pontapé em Paulo e enfrentar Bil...
Sentou na cadeira enfrente ao birô, colocou os cadernos ao lado do tabuleiro e encarando Léo, disse:
- Me ensine como se joga, por favor!
Léo deu uma gargalhada gostosa, que foi acompanhada do riso de Júlia.
- Moça esperta!
Ficaram ali por meia hora até a chegada do responsável pelo grupo de teatro. O jogo ficou sobre a mesa enquanto outras pessoas chegavam e cumprimentavam o Léo. Cada um falou sobre seu projeto para o Desafio e quem faria parte do grupo.
- Meu desafio é viver um dia de mendigo. – todos olharam Léo , alguns com cara de nojo – Quero que a Júlia participe comigo!
Aquilo a pegou de surpresa. Quando ia dizer que não podia, olhou para o tabuleiro de xadrez.
- Eu topo! – e encarou aquele rapaz que mais uma vez a desafiava.

QUERIDO DIÁRIO
16/05/1990
Amanhã é meu aniversário.
14 anos!!
O que tenho feito de minha vida?
Qual será meu futuro?
Participei do Desafio com o Léo... Saiu até no Diário de Pernambuco!
Como nossa vida parece ser tão pequena quando vemos os problemas dos outros. Quantos olhares de nojo e asco tive de aguentar e quando estava com fome e suja uma garota de rua dividiu seu pão comigo...
Quantas lições de vida aprendi...
Amanhã nasce uma nova Júlia.

Por enquanto, tento não sonhar com um certo lindo sorriso ...

8º capítulo Acampamento

  O sol raiava no horizonte  verde e úmido do sítio onde estávamos acampados.
            Júlia dormira pela primeira vez em uma barraca de camping e estava fascinada! Como uma vida tão simples e sem nenhum luxo podia ser tão reconfortante? E como estava precisando dessa renovação em sua alma.
Dormira na barraca  de Celine, num colchonete que sua amiga lhe emprestara, tão duro e desconfortável quanto o colchão de capim que vinha dividindo com seus pais e irmãos, uma velha bolsa, descansava com suas mudas de roupas e demais pertences. Era feita de Jeans usado por sua mãe também.
Parou e lembrou o quanto tinha sido difícil ir acampar no Palavra da Vida, naquele fim de semana. Sua mãe assumira um compromisso com a cozinha do acampamento muito antes do acidente e não deu trégua a filha, praticamente arrastou-a de casa, juntamente com seus irmãos e Celine.
Não queria companhia de ninguém! E passar um fim de semana num retiro com outras três igrejas, não era bem sua ideia de isolamento.
Haviam momentos que quase esquecia seus problemas nos encontros do grupo de teatro, mas bastava olhar suas mãos e as cicatrizes avermelhadas e doloridas para toda tristeza voltar.
Seus pais conseguiram uma consulta  no Hospital da Clínicas, com um médico da Igreja. Seu pai quase recusara, mas como se tratava de algo grave, cedera.
Celine Bateu em seu ombro e sinalizou para que se apressa-se.
- Temos que ir!- gesticulou em LIBRAS- pontualidade é um dos itens da gincana! Nosso grupo perderá pontos.
Júlia estava arrependida de ter aceito ou melhor cedido a muita coisa nesses últimos dias e a gincana, estava no topo da lista.
- Já vou !- falou apressando-se , mas sem a mínima vontade de fazer qualquer coisa.
Estava nessa nostalgia que ia e vinha. Alguns dias, como hoje, parecia que a tristeza era apenas uma sombra, outros, que era o ar que respirava, sufocando-a.
Correram para a fila do café que estava enorme!
Foi ali na fila que Júlia a viu pela primeira vez.
Uma moça magra, de cabelos rebeldes, nem cacheados, nem lisos, que estavam amarrados por um elástico na altura do pescoço. Estava sentada a uma certa distância do grupo, com seu café esfriando ao seu lado, enquanto lia um livro aberto sobre a mesa.
Todos pareciam ignorá-la, mas chamou a atenção de Júlia e a sensação de conhecê-la de algum lugar começou a incomoda-la, até que lembrou.
- Celine, aquela é Angela? A filha de Sr Rafael? – gesticulou para amiga
- É sim...- respondeu, mas interessada em achar o Raul– ela é assim mesmo, por fora das coisas, só gosta de ler e fala coisas difíceis e chatas...  – parou quando avistou seu namorado e pedindo licença foi até lá conversar com ele no fim da fila.
“ Nem você Celine que conversar comigo...”
Olhou na direção dos dois que lhe acenaram de volta, mandando esperar na fila.
                                               *****
Aquele poderia ter sido um dia maravilhoso para Júlia, mas ela não quis jogar, não quis nadar na piscina, não quis brincar de UNO, não queria fazer nada!
Os amigos acabaram deixando-a na sua ali, sentada próximo a piscina, pois tinha de tomar conta de seus irmãos e foram divertir-se com os garotos na água.
Nila soltava grandes gargalhadas enquanto Raul a segurava sobre a água. Seus irmãos brincavam com Celine que os ensinava a nadar no raso e de vez em quando provocavam Júlia jogando um pouco de água em sua direção.
                                               ***
Ao entardecer, fizeram uma fogueira e começaram a cantar e brincar sentados ao redor. A lua estava cheia e clara naquele sábado.Júlia reparava como o silencio preenchia os espaços entre uma música e outra e sentiu-se, mais uma vez, em paz. Foi quando viu Angela  distante da fogueira, sentada num dos vários bancos ali perto, lendo o mesmo livro do café. Algumas pessoas, mais velhas aproximavam-se, conversavam e iam embora, mas nenhum adolescente se aproximava. Nenhuma amiga ou amigo.
Sabe quando estamos no fundo de um poço e reconhecemos alguém ali dentro? Parece que somos tirados de nossa dor e queremos ajudar o outro a superar a dele, pois assim nos sentiremos melhor. Foi exatamente esse sentimento que fez Júlia ir em direção a Angela.
Não faziam parte da mesma igreja, mas ela estava morando na casa do avô de Angela, conhecia o pai dela, morava na mesma comunidade e tinham estudado na mesma escola.
Aproximou-se cautelosamente e percebeu que ela lia a Mão e a Luva de Machado de Assis. Era um de seus livros prediletos e sempre o lia quando visitava a Biblioteca de Afogados.
- Oi! Tá gostando da leitura? Eu já li e é muito bom!
Angela a olhou de relance:
- Depende... e você ? qual tipo de leitura gosta?  barroco, romantismo, humanismo, modernismo...
- Hãm??- respirou fundo, enquanto a garota lhe encarava, aparentemente avaliando-a, sem sorrir. Respirou e respondeu:
- Eu gosto de ler. -  e sorriu nervosa.
- Pois é... – falou sarcástica- era o que eu estava fazendo. – aquilo era um fora! Júlia, contudo estava disposta a ignorar e continuar o diálogo.
- Já li a Mão e a Luva, só que nem sempre lembro quem escreveu rsrsrs Machado ou Alencar, eles me confundem, principalmente nos títulos...
- Bom, se você não consegue distinguir dois escritores tão diferentes acredito que tenha de fazer uma pesquisa para sanar essa sua dificuldade em literatura, antes de prestar vestibular, mas se só está puxando conversa, terei de interromper minha leitura e lhe dar dez segundos de atenção...
- Desculpe, era apenas uma piada! É lógico que sei que ambos são o expoente máximo da literatura brasileira, que viveram na mesma época, sendo que José de Alencar destacou-se como o MAIOR ESCRITOR DA PROSA ROMÂNTICA no Brasil, tendo passado por várias fases: indianista, urbana, regionalista e histórica.

O carioca Machado de Assis dividiu a sua obra em duas fases: romantismo e realismo mas foi, sem dúvida, O MAIOR ESCRITOR REALISTA DE TODOS OS TEMPOS.

- Decorou muito bem!- falou Angela sorrindo pela primeira vez.
- É que adoro ler e escrever, mas estou impossibilitada no momento...
- Sei...
- Mas não pude aceitar o fato de que alguém que vem para este lugar, possa ficar tão isolada, principalmente, alguém que está lendo a Mão e a Luva...
- Você acha que sou sensível ou romântica por isso? kkkkk estou começando a gostar dessa conversa. Quem é você - perguntou curiosa.
- Eu? Sou a Júlia. Estudei na mesma Escola que você e to morando na casa de seus avós.
- Júlia... meus avós comentaram algo a respeito.- falou fechando o livro e refletindo sobre aquela nova informação- Seus pais e meus avós nasceram na mesma cidade e de acordo com eles, somos primos beeemm distantes, mas em cidades pequenas todo mundo é família, concorda?
- Angela, acho que to atrapalhando demais a sua leitura... – a conversa estava boa, mas não queria forçar uma aproximação. Sabia bem o que é querer ficar sozinha sem ninguém chateando. E a menção a palavra prima a fez lembrar de Bil, sua avó e a casinha lá no sítio.
- Que é isso “prima” rsrsrs você não atrapalha!
- Você vai participar da social de hoje? O encerramento da gincana?
- Bom, se terminar a leitura e fizer a resenha, talvez participe.
- E falta muito?
- Estou no 2º capítulo.
- Ah, tá! Já entendi... vou deixar você em paz, assim quem sabe podemos conversar amanhã no ônibus ...
- É... quem sabe?
Tudo que passara nesse último mês veio a sua mente ao afastar-se de Angela. Ela era arredia, mas tinha sensibilidade. Observara o jeito que falara dos avós, seus olhos brilharam. Seria muito bom conversar com ela.

QUERIDO DIÁRIO
05/05/1990

            Minhas mãos vêm melhorando aos poucos e quase não sinto dor quando escrevo. Os pontos foram tirados e já consigo escrever,com dificuldade e bem devagar, a letra é horrorosa ,mas escrevo!
            Hoje tive a oportunidade de conversar com a Angela. Ela participou da Social e conversamos muito.
            Apesar de ser tão careta e as vezes chata rsrsrs ( palavras dela), ela é muito legal!
            Acredita que ela leu A Mão e a Luva e fez uma resenha em quatro horas? E quando perguntei porque não terminara antes, ela me olhou e disse:
            - Ter um livro nas mãos é a melhor maneira de afastar pessoas quando precisamos escutar nossa própria voz e conversarmos com nosso EU interior.
            Caracas!! Rsrsrs ela delira às vezes né? E eu que pensava ser CDF demais... rsrsrs nem parece que acabou de completar 13 anos...
            Sorrimos muito e refleti muito sobre mim hoje. E olhe que não tenho muitos motivos para sorrir, faz tempos, mas por que ela é tão solitária? Tão isolada? É quase como se não existisse nesse mundo, como se tivesse nascido no tempo errado...

sábado, 26 de outubro de 2013

7º capítulo Desafios


                 “ Por que  querem que eu seja diferente?”

                Júlia estava sentada na calçada em frente a Escola, perto da Senhora que assava tapiocas. Nada estava sendo fácil na sua vida desde o ano passado: as dúvidas amorosas, adoção da Nila, perseguições, sumiço de Lara, a vida naquele quartinho tão apertado que um espirro acabava em confusão com seus irmãos e o acidente depois da briga ... Parecia que haviam cavado um poço, colocado ela dentro e estavam enterrando aos poucos.
                “ Minha vida nunca foi uma maravilha, mas agora, agora parece que tudo de ruim resolveu bater a minha porta de uma vez!”
Sentiu a garganta apertar e os olhos arderem com o choro que vinha, mas respirou e olhou para o Céu.
“ Deus, me dê forças! Não vou aguentar! Não consigo viver com tanta tristeza! Nunca mais tocar piano? O que vou fazer agora? Nem escrever direito posso, nem meu diário posso escrever direito e ainda tenho de escutar as cobranças, os julgamentos, as lições de moral. Tem hora que consigo calar, mas tem hora que falta pouco, muito pouco para explodir e mandar todo mundo ... O que eles querem? Tinha meus sonhos, não quero seguir um padrão ! Não quero ser mais uma na multidão! Quero ser eu mesma!”
“ Até dentro da Igreja existem pessoas que querem nos moldar do jeito delas, que sigamos os padrões delas e ousam dizer: a Bíblia fala isso ou aquilo, mas quando vou lá na Bíblia, não diz o que elas nos querem fazer crer. Parece que não somos ninguém, não podemos pensar diferente, agir de outra maneira... A coitada da Gema, ainda bem que ela falou com o Pastor. Ele foi legal, falou com o Eli, com os Pais dela e deu a maior prensa no Da-vi-son arff ele teve coragem de gritar na igreja o que fez com ela, se não fosse o Pastor... Agora está tudo bem, ela e o Eli voltaram e  vão casar daqui a dois anos. Nunca a vi tão sorridente, mas e quanto a mim? Fui julgada e condenada, a Sandra foi transferida, já tinha causado muitos problemas.”
Lembrou dos comentários da Sandra sobre sua aparência, as amigas comentavam que parecia uma freira, que era careta, que obedecia a tudo e todos parecendo uma robozinha. Lembrou dos apelidos  que lhe davam: Pollyana, Santinha, Cabeçuda, Vareta... Era como se só fosse isso, como se não pudesse mudar, sair daquele padrão e quando houve a briga e o acidente, todos fizeram cara de nossa o mundo está perdido , a Júlia está rebelde.
“ Não queria brigar, não briguei, mas quem quer me escutar? Não preciso fazer o que os outros fazem pra saber as consequências. É só observar os resultados e seguir os bons exemplos e sempre lembrar dos meus próprios erros...” Pensou olhando suas mãos e lembrando do que acontecera com Lara e Gema. “ Mas as vezes chego a duvidar do futuro, queria ser pianista, mas o corte em minhas mãos, esse acidente, tirou minhas chances. Meus pais não tem condições de pagar a cirurgia, vou tentar uma vaga no Hospital das Clínicas, porém ainda tem a fisioterapia... Mamãe falou que dificilmente teremos condições de pagar a passagem das seções, mesmo que de graça.”
 Sentiu as lágrimas forçando a saída e a garganta apertando de novo. Aquilo doía muito mais na alma do que no machucado em si. Os pontos tinham sido tirados, mas ainda não sentia os dedos. “ Meus pais são pobres, hoje enxergo com clareza porque eles sempre sorriam quando me perguntavam o que faria depois do 2º grau. Até o ano passado tinha certeza de quem eu era, o que queria ser, dos meus sentimentos. Mas de repente tudo começou a mudar, a ficar mais difícil, enfrentar coisas que meus pais resolviam por mim. Deixavam de comprar coisas pra eles, para comprar um caderno ou comida pra casa, mas porque se satisfazer com tão pouco? Por que justo agora que minha mãe decidiu estudar, meu pai fica implicando?” Repirou olhando a turma que começava a chegar e se amontoar na frente da Escola, nem sinal de suas amigas. Tinha vindo na frente com sua mãe para conversar com a D.  Vera e trazer o atestado médico, que justificavam as faltas.
“Até o ano passado meu pior problema era estar apaixonada por dois meninos, ser a única sem namorado e ser deferente de minhas amigas, mas agora surgem outros que tornam os outros pequenos, me fazendo ver o quanto eu era tola...” Sentia um amargo na boca, não conseguia comer, a tristeza impedia que engolisse qualquer coisa, só chorava, não sentia vontade de sair da cama, queria sumir! Mas sua mãe a obrigara a enfrentar a realidade, a forçara, a obrigara a sair da cama e parar de lamentar, a obrigara a ir até a Escola, falara com a Diretora e a deixara ali sozinha, com umas moedas para comer uma tapioca.
Passara por apelidos, pobreza, perseguição, timidez, zombaria, contudo o isolamento ao qual se entregara, depois da briga e do acidente, mexera com ela, a fizeram sair da redoma e perceber que não tinha chão sob seus pés, pois construíra seus 14 anos de vida, quase 15 , apenas sobre sonhos e fantasias em seu mundo interior.
O velho dilema sobre quem era, porque existia, qual seu futuro, ressurgiram com força total, quando seu maior sonho lhe foi tirado: ser pianista. A revolta as vezes tomava o lugar da tristeza, outras vezes a amargura a dominava.  Depois percebia que estava sendo cruel e a tristeza voltava mais forte. Ainda bem que desde o acidente não voltara a explodir, mesmo quando brigava com seus irmãos, conseguia controlar a raiva e calar. Passara a ignorar todos e tudo e mesmo num espaço mínimo, conseguia evitar o contato e a conversa, deitando e dormindo. Não tinham TV, apenas um radinho velho que sua mãe ouvia. Seus irmãos voltavam da Escola, sentavam a mesa, faziam as tarefas e iam assistir TV na casa de D. Quitéria. Depois voltavam e a encontravam deitada dormindo ou fingindo que dormia.
Foi quando sua mãe, conversando com seu pai, resumiu tudo que sentia e tomou a decisão  que resultou na sua volta a Escola:
- Ela parece uma panela de pressão prestes a explodir, mas vou fazer exatamente o que faço com a panela: tirar o ar debaixo de água fria! Você vai ver amanhã... – Júlia escutou calada, já deitada e não se mexeu.
A senhora da tapioca a chamou e entregou uma tapioca quentinha. Júlia olhava desanimada a mão da mulher estendida, sem vontade de comer:
- Sua mãe disse que se você não comer é para mandar um recado por suas amigas.- A garota encarou a Senhora, pegou a tapioca e deu uma mordida sem vontade, mas acabou comendo tudo. Estava faminta.
Foi quando terminou o lanche que avistou suas amigas. Olhou-as e, pela primeira vez na vida, não queria a companhia delas. Queria fugir, estar bem longe dali, muito longe!
- Oi Jú!! Que bom ter você de volta- cumprimentaram abraçando Júlia e entrando na Escola- estamos atradas!!- lembrou Flora
Júlia as deixou passar, sem responder nada e foi caminhando atrás, agarrada aos cadernos, caminhando sem pressa. Passava pelo mural quando algo lhe chamou a atenção.
“ Você quer ser alguém diferente?”
A frase chamou sua atenção.
“ Venha fazer parte  do grupo de teatro do Grêmio. Nós precisamos de seu talento.”
Algo nasceu dentro de toda tristeza que sentia. Uma pequena chama de esperança. Lembrou-se de D. Vera e sua recomendação para que participasse do grupo, mas ignorara aquela ideia e agora, lá estava a sua frente um novo convite.
“- é hoje... após a  4 ª aula. Será que vão me aceitar?” o medo apagou sua esperança que nascia “-não vou conseguir...”- mas a curiosidade a fez seguir em frente com o desafio .
“- Peraí os outros acham que não consigo, mas nunca tentei.”
E durante o período que a separava do desafio, ficou calada pensando, ora segura, ora ansiosa, ora medrosa. Não queria falar com ninguém, não queria falar sobre o assunto com suas amigas, mas como escapar na última aula sem elas verem? E se não desse tempo de voltar com elas? Sua mãe dependia dela para estar em casa . Seu coração acelerava, sentia um grande aperto no coração, o estomago chegava a doer de tanta angústia e ansiedade.
“Eu vou! Digo que preciso fazer algo... falar com D. Vera por exemplo, mas preciso ir! Preciso tentar! Ai! Não queria mentir, mas não quero falar... o que faço?”
Faltavam 10 minutos para o final da aula quando pegou um pedaço de papel e rabiscou com dificuldade por causa do ferimento.
“ Tenho de sair agora! me esperem no final da aula, por favor!”
Recolheu os livros, rapidamente e levantou depressa, entregando o bilhete ou melhor jogando o bilhete sobre a banca de Gema e saiu quase correndo da sala, sem esperar para ver os olhares atrás de si.

QUERIDO DIÁRIO
30/04/1990
           
            Estou escrevendo com dificuldade, minhas mãos ainda doem, mas não podia deixar de escrever o que aconteceu hoje.
            A minha vida está em polvorosa, mas o Brasil está pior! Está assustado!! 
          O novo Presidente assumiu e sua primeira medida foi congelar a nossa poupança! Muita gente que conheço está desesperada, pois tinha todas as suas economias aplicadas na poupança. A situação tá muito feia, nem sei se papai vai conseguir terminar a casa...
         Mas mudando de assunto, retornei hoje a escola. Foi difícil encarar todo mundo... contudo, hoje foi um dia de decisão! To no grupo de teatro da Escola e já falei pra minha mãe que deu a maior força, principalmente quando disse que tinha sido sugestão da Diretora.
          Tem vezes que parece que estamos no fundo do poço, então acontece algo muito ruim e percebemos que o poço pode ser mais profundo... Gosto muito do Cazuza, o cantor e tava  vendo uma reportagem sobre ele. Tem uma doença nova, chamam de AIDS e ele pegou. Tinha tudo pra desistir de viver e por certo tempo, pensei que seria seu fim, mas a força que ele tem passado agora é imensa. A vontade de superar e viver! Tenho de encontrar um pouco dessa força dentro de mim... Preciso me afastar da dor que me consome, mas como?

            Esse tem sido meu maior Desafio: encontrar um caminho.