sexta-feira, 23 de agosto de 2013

6º capítulo Orgulho e revolta


Júlia abriu os olhos um pouco zonza ainda.
Seu corpo estava em alerta, algo estava diferente!
Fechou e abriu os olhos, novamente. Estava num lugar escuro, deitada de bruços em algo duro, o corpo todo dolorido... mexeu as pernas lentamente, tentando se virar e esbarrou num braço. Aquilo a fez se sentar assustada. Não estava em seu quarto!
O sono passou rapidamente e com o corpo em alerta, começou a lembrar, pouco a pouco os últimos acontecimentos.  Estava com sua família no vão que Sr Ferreira  alugara para eles, enquanto seu pai reformava a casa deles. O dia anterior fora muito exaustivo, tinham poucas coisas, mas haviam carregado todos os seus pertences e arrumado no quartinho. Era um lugar muito pequeno, Sr Ferreira não queria cobrar por ele, mas seu pai era orgulhoso e não aceitara até ele por preço.
Tateou assustada a cabeceira da cama e sentiu a caixa com suas roupas, sapatos, objetos pessoais e a bolsa de Lara, bem escondida, no fundo da caixa.
Como o lugar era muito pequeno estava tudo amontoado e sem espaço para armarem as camas. Sua mãe improvisara  um local no chão com os colchões de capim seco que ela mesma havia feito. Era muito duro, coçava, podia sentir as pontas do capim espinhando a pele, mas era  o que podiam ter.
Sua mãe juntara todos os colchões, num total de três, as meninas ficaram junto da parede, os meninos no meio e seus pais próximos a porta. Júlia tateou ao redor de si procurando Nila e percebeu que ela não estava no lugar onde a deitara, mas sim aos seus pés, com o braço onde antes estava a perna de Júlia. Seus irmãos durante o sono turbulento rodaram a cama toda, empurrando seus pais para fora do colchão.
-“ Isso  não vai dar certo...- pensou Júlia- como papai vai trabalhar amanhã todo dolorido? E eu? Como vou fazer minha prova de Biologia? Como vou estudar ? como vou estar tranquila na hora da prova, se nem consigo dormir direito, imagine estudar.” Sua mãe quase pegara as redes que D. Quitéria, gentilmente , lhe oferecera, mas seu pai, orgulhoso demais, recusara rispidamente.
Não era a primeira vez que ela percebia o quanto seu pai era orgulhoso. Pra que tanto orgulho? Por que não aceitar ajuda? Aquilo fez surgir sentimento um tanto desconhecido: raiva misturado com decepção e vontade de ser outra pessoa, de ser diferente... sentiu-se revoltada. Seu  desejo era de gritar, fugir, desaparecer, chorar...
-“ Por que tudo tem de ser tão difícil pra mim? Por que não posso ter o que desejo? Por que uma vez na vida não podia ser diferente?”
Voltou a deitar e tentou conter o choro para não acordar os pais e irmãos.
Queria uma vida normal, poder comer sem ter de contar cada concha de comida, usar roupas e sapatos novos, poder sair pra passear, comprar livros,coisas bonitas que passavam na TV ou via nas vitrines da loja, queria poder voltar todo dia de ônibus pra casa. Não podia nem levar adiante seu sonho de ser pianista, pois não tinha dinheiro pra viver da música.
            - “ Pra que estudar então? Pra que? Se não posso nem ser o que quero. Meu pai disse que ano que vem tenho de procurar trabalho, que não pode pagar minha faculdade, se quiser estudar mais terei de fazer vestibular para uma Universidade pública, mas como concorrer? Como passar no vestibular se não posso nem frequentar um cursinho?”
            E ficou acordada até que ouviu seus pais levantando. Fechou o olhos fazendo de conta que ainda dormia.

****
            Já havia passado uma semana após a mudança e Júlia todas as noites não dormia. Estava com olheiras horríveis. Sentia-se sonolenta e irritada durante o dia, qualquer coisa a chateava e sentia vontade de ser grosseira. Na Escola estava ainda mais calada. Suas amigas já haviam percebido o mau-humor da amiga e preferiam deixá-la quieta.
            Contudo, alguém havia percebido. Alguém que não simpatizara com Júlia e a observava desde o primeiro dia.  Sandra estava aguardando a oportunidade de atacar Júlia e humilhá-la, mas a garota sempre estava com as amigas. Não havia motivos para essa hostilidade, ela apenas não simpatizara com Júlia e adorava fazer outras pessoas sofrerem.
            E foi justo na pior semana da vida de Julia que a oportunidade apareceu.
            O toque do recreio fez-se ouvir e os alunos saíram às pressas da sala.  Demorando mais do que o normal pra sair da sala, suas amigas a deixaram pra trás sem perceber. Nesse momento quatro meninas encostaram-se à porta da sala, dentre elas Sandra.
            - Olha só o que temos aqui Adriana?  Kkkkkk
            Júlia que já se encaminhava para porta estancou onde estava. A garota aproximou-se debochadamente, insultando Júlia.
            - Uma magrela sem graça e nojentamente branca – sua voz era cheia de menosprezo e Jú continuou calada, enquanto as outras meninas riam.
            - Ora ora, será que ela tem língua? Por que dinheiro,  sabemos que não tem ou não usaria esse lixo de roupa, nem creme pra pentear os cabelos ela usa kkkkk fede que  nem cachorro molhado, pois deve tomar banho de sabão amarelo...- e continuou a provocar Júlia, chamando palavrões, mas ela continuava parada e calada. Como não via reação da outra Sandra apelou- sua mãe é uma cadela, eu a vi dando...
            Ao ouvir falarem de sua mãe, Júlia que andava muito irritada e quase sem controle, explodiu de vez. Olhou sua agressora e avançou pra cima dela agarrando seus cabelos.
 Sentia uma raiva insana! Queria descontar tudo que sentia toda sua agonia naquela garota, mas sentiu um pontapé em suas costas e alguém puxando seu cabelo por trás.
As amigas de Sandra vieram em seu auxilio e prenderam Júlia, que se debatia, pelos braços. Foi quando Sandra tirou o estilete do bolso, que ela parou de lutar.
- Brabinha né? Quero ver com a cara cortada... – aproximou o metal do rosto de Júlia que a encarava agora assustada.- não vai dizer nada? Talvez não, mas saiba que  você será marcada rsrsrs e não poderá fazer nada!
- O que é isso aqui?- perguntou o zelador passando pela porta. – Soltem essa garota e você não ouse encostar isso nela!
A entrada repentina de Sr Zé distraiu Sandra e Júlia dando-lhe um pontapé, puxou com força os braços, soltando-os e correu em direção à porta.
- Não fuja! Vamos todos pra diretoria!

******

- Uma semana suspensa!! Uma semana? – A mãe de Júlia gritava tanto que suas veias do pescoço estavam puladas- Eu devia te dar uma surra!!  O que tá havendo??
- Já disse que não fui eu! – gritou Júlia – Não sei porque, mas ela começou!!
Sua mãe ,assustada com o grito da filha que nunca sequer lhe respondia quando recebia uma bronca, parou e a encarou . Júlia percebendo o que fizera, que gritara com sua mãe começou sentou na cadeira da mesa, baixou a cabeça e começou a chorar, batendo os punhos na mesa descontrolada. A mesa velha não aguentando as pancadas cedeu, derrubando os pratos e copos que estavam sob a mão de Júlia que não havia parado a tempo e caia junto com aquele monte de vidro e madeira quebrados no chão.
- Aiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii !!

           
QUERIDO DIÁRIO
01/04/1990

            Pela primeira vez na minha vida não quero falar nada, escrever nada. Apenas deixou uma lista:
            - uma semana suspensa
            - minhas mãos cortadas
            - não poderei mais tocar piano.

            - quero morrer!

sábado, 17 de agosto de 2013

5º capítulo A mudança


“Meu pai ta paranóico!”
Desde o dia que foram seguidos, S. Caetano não tirava da cabeça  a idéia de que todos deviam ficar em casa. Ele até pedira pro irmão de Helena ficar esperando Júlia na estação e a noite ia  buscar a esposa na escola, até trocara os dias de serviço. E agora a idéia de reformar a casa...
Júlia não podia ficar no portão de casa, seus irmãos não estavam saindo pra jogar bola, principalmente, depois que um dos meninos desaparecidos foi encontrado morto  nas margens do rio Capibaribe. Não era conhecido de Júlia, mas aquilo a deixara muito abalada. Seus pais conversaram muito e até foi abordada a idéia de voltarem pra Capoeiras.
S. Ferreira ofereceu uma casa que ele alugava, enquanto era feita a reforma. Seus pais não pagariam aluguel e a casa ficava na rua Cabo Eutrópio.A Mudança já estava certa pra acontecer no final de semana.    
Quanto a reforma, todas as economias foram tiradas do banco e a igreja também estava doando um pouco de material de construção... todos ajudariam a construir a nova casa. Júlia ficara calada, pois de que adiantava sair para um lugar tão perto ou simplesmente reformar a casa? Qual era o motivo do medo de seu pai?
- Quer dizer que você vai ser minha vizinha? – perguntou Gema pensativa.
- Pois é... e você como vão as coisas? Desistiu da idéia de casar?
Elas estavam no pátio da escola esperando as amigas terminar o teste de biologia.
- Você sabe que sim... eu... eu não posso viver sem Davison!!
- Por que? Por que você diz isso? – quis saber Júlia desconfiada.
- Júlia eu...
- Ai, Gema! Você sabe que pode confiar em mim...
Gema começou a chorar baixinho.
- O que foi amiga? Diga, por favor!
- Eu... Júlia o que você vai pensar de mim...
- Eu não vou pensar nada! Só quero entender o porquê de minha amiga estar tão obcecada com a idéia de casar? O que a fez esquecer uma pessoa que até bem pouco tempo, era seu namorado...
- Eu e o Davison ... nós dois... como posso lhe dizer... – e olhando a amiga nos olhos confidenciou – eu dormi com ele... – e voltou a choramingar
- Gema, como isso aconteceu? – perguntou Júlia incrédula.
- Júlia, não me julgue! Eu sempre namorei o Eli e ele nunca me beijou ou tomou alguma atitude errada... eu sempre quis mais... meus pais confiavam nele e ele nunca ousou tentar nada de errado... sempre planejava nosso futuro e falava que um dia, eu seria sua esposa... mas, como eu podia casar com ele? Como saber se ele era a pessoa certa? Ele foi meu primeiro namorado... e seguia a idéia de fazer a corte...
- Sei... tem uns irmãos lá na igreja que já falaram sobre isso... você namora com a pessoa sem tirar vantagens ou provocar sensações que não podem ser satisfeitas antes do casamento... achei interessante...
- Pois é... eu também! Mas, só no início... ai ficava ouvindo minhas amigas comentando dos beijos, dos carinhos de seus namorados, ouvia a Graça falar das coisas que ela faz com o namorado e fiquei em dúvida... foi quando conheci o Davison lá na igreja... Ele começou a me paquerar e... no começo eu não dava bola, mas ele começou a segurar minha mão, me abraçar e... eu fui deixando... um dia, tive uma discussão com o Eli e fui pro pátio da igreja, foi ai que ele aproveitou pra se declarar...
Júlia ficou calada. Como a amiga passou por tudo isso e nunca contou nada pra ela?
-Ele foi gentil comigo e me chamou pra ir ao cinema, saímos uma duas, três vezes... ele me beijava e me fazia sentir coisas que nunca senti com o Eli... com ele eu não penso... foi quando ele me chamou pra ir a casa dele, conhecer a mãe dele... quando cheguei lá, a casa tava vazia... ele tinha mentido pra mim... eu disse que ia embora, mas ele começou a me beijar a dizer coisas bonitas e quando vi... eu e ele... ai, Júlia! Como eu posso falar isso pro meus pais? Como posso voltar pro Eli? Quem vai querer casar comigo agora? Só ele...
- Gema eu... amiga calma! – Júlia abraçou a amiga enquanto ela chorava – eu preciso perguntar...você...  você está grávida?
- Não... Mas, você conhece minha família, minha vida, minha igreja... Como vou continuar lá? Eu não vejo outra saída... Depois desse dia não deixei ele me tocar novamente, então ele me disse que ia falar pro pastor... disse que eu tinha que casar com ele!! – e ainda chorando, confidenciou - sabe o que é pior? É que descobri que não gosto dele... gosto do Eli, mas agora ele nunca vai me querer...
- Calma! Calma! - e olhando a amiga em prantos disse:
- Antes de tudo amiga, ore comigo...
E ali sentadas ambas deram as mãos e oraram pedindo uma solução a Deus.

********

Era  sexta feira e Júlia voltava da escola com as amigas quando avistou o mesmo homem que a vinha seguindo. Suas amigas também o viram, mas como estavam próximas a casa de Flora, elas correram pra dentro de casa e fecharam a porta, assustando a D. Maria, mãe de Flora.
- Oi, meninas! Que susto! – notando o medo que as meninas demonstravam indagou – O que houve?
- Um homem mãe!! Ele ta no começo da rua e vem nos seguindo...
- Meu Deus! - e indo até a grade, olhou pro começo da rua e falou:
- Mas eu só estou vendo o pai daquela sua amiga que foi adotada, veja!
As meninas se olharam e foram pra grade olhar também.
- Quem está nos seguindo é o pai da Lara? – falou Flora – bem que eu disse que o conhecia...
Júlia sentiu o coração apertado ao lembrar do que Lara recomendara sobre seu pai. A mãe de Flora abriu a grade e disse as meninas:
- Esperem aqui! Vou falar com ele! – e saiu em direção ao homem, que estava parado na entrada da rua.
Ao vê-la, o homem deu a impressão que ia fugir, mas D. Maria chamando-o pelo nome, o fez parar pra conversar. Ficaram ali falando por quase uma hora, as meninas dentro de casa com medo, principalmente, Júlia. Quando eles começaram a se aproximar da casa de Flora, os joelhos dela começaram a tremer, suas mãos começaram a suar frio...
A mãe de Flora parou junto a grade e chamou as meninas:
- Meninas, esse é o pai de Lara... ele não tem notícias da filha a muito tempo e queria saber se vocês tem notícias dela...
O Homem as olhava, desconfiado, o olhar de maldade disfarçado de preocupação...
- Não temos... – Graça falou e Julia pra não mentir continuou calada.
- Bem, se vocês tiverem alguma notícia da minha filhinha...
- Se elas tiverem notícias, S. Joaquim, elas irão me dizer! – falou D. Maria braba – e não quero mais que o senhor as siga ou aborde, se eu tiver notícias eu lhe procuro! – Júlia percebeu o olhar do homem, mas sentiu que ele não mais as incomodaria, pois agora já sabiam quem ele era...
- Ta bom! Desculpe o incomodo! – falou indo embora, sem olhar pra trás.
- Esse daí, não vai voltar a incomodar vocês meninas, mas por via das dúvidas... Dinho!! – gritou D. Maria, pelo filho mais velho que estava no quarto e quando ele apareceu, ordenou – leve as meninas até em casa!!

QUERIDO DIÁRIO
23/03/1990


Hoje descobri quem é o homem que anda nos seguindo... é o pai de Lara!!
Fiquei apavorada!
Quem o reconheceu foi D. Maria, a mãe de Flora... mulher corajosa! Foi lá e enfrentou ele!
Disse que não o queria  seguindo a gente e mandou o Dinho nos trazer em casa... Dinho é o irmão mais velho de Flora, aquele que já namorou com Graça ... pois é, ele me trouxe aqui em casa e quando meu pai viu, quase tem um treco... eu entrei logo em casa e deixei ele conversando com meu pai, que ficou muito mais tranqüilo em saber quem era a pessoa que estava nos seguindo, mas continua paranóico... pensar que namoro o Dinho, ora essa!! Eu vi a cara dele pro meu lado... Dinho gosta de outro tipo de garota rsrsrs assim como a Graça sabe? Cheia de "atitude" e muito liberal, às vezes até demais...
Humm, falando em liberal, a Gema parou com a idéia de casar e estamos orando pra que Deus nos dê uma solução pro caso dela...
já faz quase duas semanas que ela me contou o que aconteceu...
Será que sou mesmo uma boa amiga? Primeiro não percebo o que tava acontecendo com a Lara e agora a Gema... só falta a Flora e Graça me aprontarem alguma... ou será que elas não me acham confiável?
Certa vez a Lara disse que sou muito certinha, por isso não gostava de me contar as coisas, era como se estivesse se confessando com uma freira... ri muito do comentário, mas agora paro pra pensar: será que vivo julgando minhas amigas? O que faço pra ser realmente uma boa amiga?
Amanhã é a mudança!
Vou ter de faltar a aula de piano...urfa!!

quarta-feira, 14 de agosto de 2013

Hum Novidades!!



Sabe, Deus quando ele abre uma porta? bom ele não apenas abre ele escancara rsrsrs

Dia 05-09-2013 Lançamento do Livro A História de Júlia na Livraria Cultura do Shopping Rio Mar - Recife-PE. Horário a definir.

Dia 05-10-2013 Lançamento do Livro A História de Júlia na 9º Bienal do Livro de Pernambuco, Centro de Convenções de Olinda-PE as 13h.
40 min no espaço mais concorrido por metro quadrado de leitores e escritores.

Aguardo todos lá!

Obrigada Senhor!

http://ahistoriadejulia2.blogspot.com.br/

quinta-feira, 8 de agosto de 2013

4º capítulo O noivo de Gema




Aquele domingo o culto tinha sido maravilhoso, pessoas cantando com animação,  uma mensagem inspiradora e a oportunidade de rever os amigos e trocar idéias... o grupo de adolescentes estava planejando uma acampamento e começariam a fazer tarefas pra cobrir as despesas de quem não podia pagar. Raul e Celine estavam muito animados para participar do acampamento e passar  quatro dias numa em São José da Coroa Grande. Tanto que não paravam de falar do assunto.
- Júlia a Celine quer saber... – começou Raul a traduzir o que Celine falava em LIBRAS, mas Júlia já estava entendo muito bem o que ela falava .
- Eu já entendi Raul rssrs ela quer saber se vou acampar – falou gesticulando de volta  e observando a resposta de Celine continuou – pois é, to conseguindo entender e falar muito bem LIBRAS, pois tive ótimos professores rsrrsrs.
- Celine vai ficar insuportável de tão convencida kkkk – respondeu Raul. Celine fez a maior cara de braba e respondeu que ele é que era convencido.
- Celine, talvez eu vá acampar dessa vez, pois o Pastor Moisés convidou mamãe pra ser a cozinheira do acampamento de adolescentes...
- Viva!! – respondeu Celine em sinais – Vou me divertir muito lá e você pode dormir na minha barraca... o Raul ta proibido de chegar perto kkkk
Júlia nunca tinha acampado e sempre sonhara em poder dormir numa barraca de acampamento. Se sua mãe permitisse, com certeza aceitaria o convite de Celine.
- Vou colocar meus irmãos de vigia rsrsrs – respondeu Júlia zombando da cara de Raul.
- Nem precisa, pelo que ouvi todos os acampamentos daqui tem regras muito rígidas quanto a isso e eu vou convidar seus irmão pra dormirem comigo rsrsrs ai serão três contra duas...
- Errado!! Você esqueceu Nila e minha mãe... mesmo não dormindo conosco ela é quem dá a última palavra... – apelou Júlia.
- Xiiii é mesmo!! – Raul e Celine começaram a rir e se despediram de Júlia.
Seus pais conversavam animados andando à  frente do grupo, no caminho de volta pra casa. Júlia e seus irmãos vinham mais atrás e Nila estava dormindo nos braços de seu pai. Foi quando Júlia viu um vulto próximo a entrada de seu beco... era um homem de boné e estava todo vestido de preto, com roupas muito surradas... quando o seus pais passaram por ele, Júlia  sentiu um arrepio na espinha. Aquele homem tinha algo de familiar... a garota vez de conta que não estava vendo nada e também passou por ele junto com seus irmãos... já estavam bem próximos de casa quando ao olhar pra trás percebeu que ele os seguia e pelo jeito que ele andava lembrou de onde o conhecia...
“ O vulto!! É o mesmo homem que seguiu a gente naquele dia!!”
Começou a ficar apavorada, mas não queria dar oportunidade do sujeito pegar sua família de surpresa ou de apavorá-los.
- Pai! – falou chamando a atenção do pai para que ele olhasse pra trás.
- Sim filha? – falou olhando a garota e percebendo que estavam sendo seguido. O pai falou algo no ouvido da esposa e passou a bebê para seus braços e parando antes da entrada de sua casa. Os meninos e Júlia passaram por ele e sua mãe adiantou os passos abrindo depressa o portão e colocando os filhos pra dentro...
O homem que os seguia, percebendo que tinha sedo visto. Parou encostando-se à cerca de madeira velha, umas três casas depois da casa  de Júlia. Seu pai entrou e fechou o portão e a porta.
- Que sujeito estranho? Nunca o tinha visto por aqui antes...
- Pai, esse homem anda seguindo a gente e... acho que já vi ele antes por aqui... – falou Júlia com cuidado, não revelando o que houve na volta da escola.
- Olga, quero essa porta sempre fechada com corrente e os meninos dentro de casa... não gostei da cara desse sujeito... e você Júlia nada de voltar sozinha pra casa...
- Venha querido vamos jantar... foi apenas um susto... – falou sua mãe tentando normalizar as coisas – amanhã converso com a vizinhança, deve ser algum parente de nossos vizinhos...

No dia Seguinte, quando estava saindo de casa, Júlia olhou com medo pra todos os lados e acelerou os passos em direção a casa de Gema onde sempre se encontravam pra ir a Escola. Mal dormira  a noite e quando finalmente conseguira relaxar, teve pesadelos horríveis, onde era seguida e encurralada pelo homem que os estava seguindo... Será que era o mesmo homem?
Andou pela rua principal que era conhecida como Rua cabo Eutrópio. As casas eram muito melhores e as pessoas  que viviam nessa rua, em sua maioria, eram pessoas que tinham uma situação financeira um pouco  melhor.A casa de Gema era a número 67 dessa rua e o pai dela estava reformando a casa e fazendo um pequeno duplex.Já estava no portão da casa de Gema, quando ouviu os gritos que vinham de dentro da casa. O medo de ficar do lado de fora, foi sufocado pelo receio de entrar na casa naquele momento. Esperou que os gritos cessassem e chamou pela amiga. O que estava acontecendo?
Quando ia chamar novamente, ouviu a porta batendo forte e o portão foi aberto de sopetão, assustando Júlia.
- Vamos! – ordenou Gema sem esperar pela amiga.
- Espere... e as meninas?
- Vamos esperá-las na casa de Graça e... – começou a chorar baixinho.
- Ei! O que há? Espere um pouco...
Gema era mais velha que Júlia dois anos, tinha entrado tarde na escola e também era evangélica, mas freqüentava uma igreja diferente da de Júlia.
- Você ouviu os gritos? Não agüento mais Jú...
- Ta, ta, mas vamos nos acalmar... Enxugue essas lágrimas amiga e me conte o que ta havendo...
- Jú! O que ta havendo?? É muito simples... eu disse a meus pais que quero casar com meu namorado...
- Peraí! Casar!! Como assim?
- Vamos pra casa de Graça, lá eu te conto tudo...
Casar? A Gema vai casar? Isso é piada! Ela só tem 16 anos... Ninguém casa com 16 anos... o que ta acontecendo?
Júlia ficou todo o caminho em silêncio. A casa de Graça e Flora era perto da estação de Metrô, dali pegavam o viaduto e iam a escola... As meninas sempre marcavam na casa de Gema, pois ela era a que mais se atrasava ao se arrumar pra sair. Hoje ela estava  muito adiantada.
A casa de Graça não tinha jardim o terraço dava direto pra rua. Ela estava fechando a grade quando avistou as amigas.
- Vocês chegaram cedo! Venham, entrem que vou chamar Flora... – ordenou, destrancando a grade e  atravessando a rua em direção a uma casa parecida com a sua.- Já volto!
A chave ficara na grade aberta e as duas entraram sentando nas cadeiras do  pequeno terraço.
- Você está melhor Gema?
- To... e olhando amiga, desabafou- Jú eu vou casar  com Davison! Eu quero casar com ele, mas meus pais não querem deixar... se eles não deixarem nos vamos fugir...
- Davison? – Júlia estranhou, esse não era o nome do namorado de Gema.- Mas você namora o  Eli... quem é esse Davison?
- Amiga conheci o dono de meu coração... o Davison é o meu noivo!!



QUERIDO DIÁRIO

12/03/1990


A  Gema vai casar!!
Pois é! E não é com o Eli o namorado dela, mas com um tal de Davison que tem 23 anos... isso mesmo! Ele acabou de chegar de São Paulo e em menos de um mês, conseguiu levar minha amiga a loucura!! Casar com essa idade? E os estudos? Ele é mais velho, comprou uma casa aqui no Coque perto dos pais dela e já está tudo arrumado pra o casamento... querido diário, como isso é possível? A Gema namora o Eli a três anos! É uma de minhas amigas mais coerentes, mas jogou tudo pro alto por esse Davison... hoje quando cheguei na casa dela pra chamá-la, estava a maior gritaria... e ela me disse que se os pais não deixarem ela casar, vai fugir...  aiii não sei não... estou orando muito pela minha amiga...
Humm nenhum sinal do homem que nos seguiu, acho que foi coincidência, o homem que nos seguiu na volta da escola e o da igreja, são apenas parecidos... sei lá!  Meu pai ficou paranóico!! Não nos quer nem no portão depois das 19h ... queria que mamãe não fosse pra escola esses dias, mas ela disse que não ia deixar de estudar... nunca vi meus pais discutirem, mas eles chegaram bem perto hoje...
Papai saiu pro serviço e nos deixou trancados aqui! Seu Zuca o pai da Helena, ficou de guarda na rua ... parece que ninguém conhece o sujeito... pensam que ele pode ser o responsável pelo desaparecimento de dois garotos da rua de baixo...
Deus nos proteja!!



Ps : Nós vamos acampar!!

3º capítulo A troca e o convite



Na manhã seguinte, Júlia não tinha animo pra sair da cama. Sentia o corpo dolorido e os olhos mal abriram de tão inchados. Sentia cólicas e as pernas cansadas...
“O que eu tenho?”
Quando levantou o lençol percebeu que estavam sujos de sangue...
“Calma! Nada de desespero!”
Nesse momento ouviu a mãe na cozinha e ficou com medo, com vergonha do que estava acontecendo.
“Mamãe já conversou comigo sobre isso, eu já li sobre isso...”
Criando coragem, chamou a mãe:
- Mãe! Mãe! Por favor, vem cá! – sua voz não escondia o desespero.
- Júlia, ainda na cama? O que foi? - falou entrando no quarto que a filha dividia com os irmãos - Mário e Carlos já estão tomando café e... – D. Olga percebeu que a filha chorava baixinho. – Vamos o que foi?
- Mãe, sabe aquilo que a senhora disse que aconteceria comigo e que seria um sinal que estou deixando de ser criança? – falou com medo
- Meu Deus! Não me diga que... Ah Júlia! – sua mãe parecia encantada - não se preocupe... Esse será nosso segredo! Venha! Vou ajudar você...
E saindo do quarto voltou depois com uma pequena bolsa e começou a conversar com a filha, sobre as mudanças que ela estava passando.

Na Escola, antes de entrar em sala, Júlia foi falar com a diretora. D. Vera estava sentada atrás de sua mesa e tinha a frente muitos papéis, o qual lia e assinava um a um, sistematicamente. Foi quando reparou em Júlia parada na porta da sala.
- Júlia, não é mesmo? Vamos, entre!
- A senhora disse que queria falar comigo hoje... eu queria dizer que estou melhor... – Júlia tratou logo de esclarecer – não estou grávida, nem doente, eu...
- Humm você ficou incomodada com o que ouviu de minhas colegas de trabalho... fique tranqüila que já conversei com elas e proibi que seja comentado o assunto nesta Escola – e encarando Júlia perguntou – agora o que faço com você?  Minha amiga, D. Severina, sua antiga diretora, ligou semana passada querendo saber de você... – Vendo o assombro de Júlia, D. Vera memeou a cabeça sorrindo – é eu a conheço e ela ficou o tempo todo dizendo o quanto você é esforçada, inteligente e não sei mais o que ... então passei a lhe observar e perguntar aos professores como você estava indo em sala... ouça bem não costumo ficar sondando muito os alunos, mas quando me disseram  que nem lembravam de você, comecei a ficar inquieta... Severina não se engana...
Júlia continuava calada de cabeça baixa  em frente ao birô da diretora, escutando tudo aquilo, como se estivesse levando uma bronca.
-... Então entendi... ora como não tinha notado antes? Você está deslocada e separada de suas amigas... Bem, soube de seu desejo de  ficar na turma delas... posso lhe remanejar Júlia. É esse seu desejo?
- A senhora vai me deixar ficar na mesma sala de minhas amigas?? – Júlia perguntou encarando a diretora sem acreditar no que ouvia...
- Vou! – sorriu a diretora – e quero lhe convidar a fazer parte de nosso grupo de teatro da Escola também...
- Mas eu não sei... tenho medo de falar e muita vergonha...
- Isso vai lhe ajudar a superar seus medos Júlia, nunca fuja de algo que dá medo. Sempre enfrente o seu medo, senão ele toma conta de você...
- D. Vera! – chamou Júlia admirando aquela mulher a sua frente e transmitindo toda sua gratidão falou : Obrigada!
 Júlia saiu da sala sorrindo e foi para sua nova sala. Já não sentia tanto medo, pois estaria junto com suas amigas. Ao chegar na porta parou e pediu licença ao professor para entrar. Suas amigas aguardavam espantadas, enquanto Júlia explicava ao professor que D. Vera a trocara de sala.
Com um grande sorriso sentou junto de suas amigas e o professor retomou a aula.
- Você vai ficar conosco!! Viva!! – vibrou Graça em voz baixa.
Júlia sentou na cadeira mais próxima de suas amigas e baixando a cabeça, agradeceu a Deus. Finalmente sentia-se bem naquela nova escola... era como se aquele fosse o seu primeiro dia de aula.
 No intervalo, Júlia explicou tudo que acontecera, pois suas amigas queriam saber de tudo, mas não contou nada sobre o teatro...
- Mudando de assunto, hoje temos de sair no horário, não quero passar por aquele susto de ontem de novo... – avisou Flora – tive até pesadelos... arff!!
- Acho que ninguém quer passar por isso de novo, mas acho que conheço aquele homem que nos seguiu... não sei de onde... – comentou Graça.
- Olha gente, sei que a culpa foi minha... se eu não tivesse passado mal...
- Que é isso Jú? Você não passou mal porque quis! Eu disse que não devemos mais ficar até tarde, só isso... se alguém passar mal é diferente!
Como vou fazer parte das aulas de teatro se nem posso ficar após a aula? as meninas estão com medo e não quero ser culpada de novo pela saída após o horário...


QUERIDO DIÁRIO
09/03/1990

Hoje de manhã pensei que estava morrendo quando vi meus lençóis sujos de sangue, mas mamãe estava perto e me ajudou... agora não sou mais criança rsrsrs só pareço  criança ... Ai! Estou tão feliz!! A diretora trocou minha sala e agora estou junto de minhas amigas, até a aula pareceu melhor hoje!!
Humm  sobre ontem a noite, o vulto sabe, eu não contei nada aos meus pais e a Graça falou que acha o homem parecido com alguém... sei lá!  Ela sai muito mais de casa do que eu, talvez seja mesmo verdade... o que me preocupa é que a Gema hoje estava muito calada, não tive como conversar com ela, mas acho que ela tava chorando... o que será que ela tem?
           Quando cheguei hoje em casa tinha uma carta da vovó sobre a mesa e uma do Bil pra mim... ele escreve muito bem rsrsrs falou dos bezerros e cabritos que nasceram, da seca que faz com que ele vá buscar água nos barreiros vizinhos, da colheita da castanha de caju... falou que voltou a estudar e está pensando em tirar carteira de motorista, disse que quando eu for lá pode até me ensinar a dirigir, pois ta juntando dinheiro pra comprar uma caminhonete usada... disse também que ta interessado em uma garota, mas ela parece que não gosta dele, sabe como é né? como  namorada ... Ele já tinha falado nessa menina antes, mas toda vez que pergunto se conheci ela, ele não responde... acho difícil ter alguma garota que não goste de meu primo, além de bonito ele é muito esforçado ... ela deve está é cega, isso sim! Lembro que quando fomos ao povoado do Riacho do Mel, nossa as meninas ficavam todas derretidas... humm quem será essa garota?

quarta-feira, 7 de agosto de 2013

2º capítulo = A Tocaia


















“Cabeça baixa!”
O medo e desespero cresciam em seu interior.
“Continue calada e quieta!”
Júlia podia sentir os olhares em sua direção... Estava sentada na última cadeira de sua fila, encostada na parede... Nunca precisara ficar tão isolada quanto naquele momento...
“Ele vai me ignorar!”
Uma garota bonita que estava sentada na primeira cadeira da fila levantou e foi à mesa do professor pegando o giz que ele oferecia.
“Consegui!”
Um mês. Júlia já estava na nova escola à um mês e seu pavor aumentava com o passar do tempo. Hoje quando o Professor de Matemática  convidara alguém pra ir ao quadro resolver  uma equação, a garota pode sentir o olhar de todos presentes em sua direção, ela mal respondia a chamada!
Durante as aulas os colegas a ignoravam, o que ela achava ótimo... Não queria ninguém zoando ou importunando. Durante os intervalos estava salva. Podia desfrutar da companhia de suas amigas e relaxava um pouco.
- Júlia! – chamou o professor
“ Essa não! Essa não!! Meu Deus!!”
As mãos pingavam de suor, podia sentir o rosto pegando fogo, do nada começou a sentir uma dor apertando seu coração e um mau estar tomando conta de seu corpo.
Levantou a cabeça devagar pra responder ao professor, mas sua garganta estava pesada, sua voz presa...
- Trrrrrrrrrriiiiiiimmmmm!!!
O toque de saída. A turma toda levantou ignorando o professor e saindo da sala. Júlia ainda estava sentada, tentado se recompor da crise de pânico. Sentiu o olhar firme do Professor em sua direção e procurou ignorar, guardando o material depressa e de cabeça baixa.
         Encontrou as amigas no portão:
         - ... e a Flora disse kkkk porque  você não responde Professor? Kkkk – caçoava Gema.
         - É mesmo!! Arf!! O Professor fica perguntando e quando respondo, ele pergunta de novo... Arf!!
         - Ele pergunta Flora, porque esse é um dos pontos da Filosofia... Não é mesmo Júlia? – indagou Graça querendo o apoio da amiga.
         - Eu... – Júlia parou de repente muito pálida e apoiando-se num canto da parede vomitou.
         - Júlia!! – gritaram as amigas desesperadas
         - Ta tudo bem eu só... – começou a falar antes de desmaiar.

         Júlia sentia-se zonza... percebeu que estava deitada e pode sentir um cheio forte de álcool em seu nariz.  Quando estava abrindo os olhos escutou alguém atrás da cadeira sussurrando:
         - Ela está grávida? – perguntava a voz. Aquilo fez Júlia não abrir os olhos logo, mas sentiu o rosto esquentar de tanta vergonha...
         - Não sei... essas meninas de hoje... – respondeu a outra pessoa sussurrando.
         - Chamem as amigas dela! Creio que ela já está melhor... pelo menos não está mais pálida...
         Júlia ouviu a porta bater e pensou em continuar ali de olhos fechados até as amigas voltarem, mas a pessoa que mandara chamar suas amigas, não se deixara enganar e sabia que ela estava acordada.
         - Pode abrir os olhos! Essas duas só servem pra fofocar... – Julia reconheceu a voz como senda Diretora da Escola, Dona Vera.
         Abriu os olhos e percebeu que estava na direção sentada num pequeno sofá. A diretora era uma mulher pequena e muito gorda, mas não era feia, era bonita e sorria pra Júlia com interesse.
         - O que... o que houve? Eu...
         - Bem, você desmaiou! Trouxemos você pra cá e tive de tirar suas amigas a força daqui...
         - Eu não estou grávida! – tratou logo de esclarecer preocupada.
         - Humm desculpe minhas colegas... Elas não sabem reconhecer certas coisas, nem certos limites... – e olhando Júlia com interesse, afirmou:
         - Tenho observado você esse mês... Desde que os professores começaram a falar de você na sala dos professores... Calada, isolada, mais muito inteligente...
         Júlia procurou uma posição mais confortável no sofá, pois só agora notara que estivera deitada nele, ou melhor, largada.  Arrumou a roupa e evitou olhar D. Vera.
         -... Mas no intervalo parece estar muito a vontade com suas amigas... - a diretora puxou uma cadeira e sentou de frente pra Júlia – não adianta disfarçar, você sente falta delas, contudo não posso mudar sua sala... Bem, como resolver essa situação?
         - Por que não posso ficar na mesma sala delas? – murmurou Júlia
         - Burocracia... Mas, talvez... – nesse momento a sala foi invadida pelas amigas de Júlia – É estou vendo que  você está melhor... Então, amanhã conversaremos... tenho umas coisas pra acertar na secretaria
         E saiu deixando as meninas a vontade. Júlia pegou a bolsa e acompanhou as amigas que não paravam de falar. Como dizer a elas que tinha desmaiado de medo? Tinha tanto medo da sala de aula que nem estava mais comendo. E a carta de Lara que recebera dizendo que estava muito mal, que tinha de trabalhar muito e mesmo tendo sangramentos, não  podia ir ao médico? A Senhora onde ela estava abrigada a tratava bem, mas tinha muito medo da polícia.... E conhecendo a amiga, Júlia sabia que Lara devia estar esforçando-se ao máximo pra não dar trabalho.
         Ainda estava zonza, mas a diretora só a liberou depois que comeu algo, ou melhor, suas amigas a obrigaram a engolir.
         Todos os dias saiam do Coque a pé em direção a escola que ficava no  Centro da cidade. Não era muito longe, apenas uma caminhada de 40 minutos, mas hoje levaria mais tempo... Júlia acompanhava os passos das amigas preocupada por já ter escurecido. Não tinham dinheiro para pagar a passagem. As meninas estavam caladas e olhavam assustadas pra todos os lados.
         Foi quando Júlia percebeu um vulto que as seguia ao longe... olhou pra Gema e de volta pra onde vira o vulto. A amiga também percebera... Nunca saíram tão tarde da escola, se Júlia não tivesse passado mal, já estariam em casa a muito tempo.
         Aceleraram os passos e avistaram a Avenida Agamenon Magalhães e o viaduto que separava o Coque da Ilha do Leite...  teriam de passar pelo viaduto pra chegar em casa, os carros passavam velozes de ambos os lados.
         Júlia orou em silêncio, pedindo forças a Deus e livramento. Aceleraram os passos e em pouco tempo atravessaram o viaduto rumo ao Coque. O pavor queria tomar conta dela novamente, sentiu a vista escurecendo, mas lutou contra aquela sensação. O vulto continuava seguindo as garotas e colocou a mão por baixo da camisa. Foi quando Júlia percebeu que na descida  do viaduto tinha uma viatura da polícia. As amigas também viram assim como o vulto que as perseguia. As meninas andaram na direção da viatura e quando olharam pra trás não avistaram mais ninguém. Passaram pelos policias aliviadas e seguiram pra suas casas.

QUERIDO DIÁRIO
08/03/1990
Que medo!! Fomos seguidas no final da aula e por pouco um homem, que Flora jura que tava armado... foi estranho, pois depois que orei, vimos uma viatura no início do viaduto e quando olhamos o vulto que nos seguia já tinha desaparecido... e a culpa foi minha...
Pois é! Hoje passei mal na saída da Escola e fui parar na direção... Calma, não foi castigo!
Fui socorrida pela diretora, ela parece ser muito simpática... Quase esqueci o pavor que tenho sentido de ir aquela Escola, por isso passei mal... quer dizer, e por não ter dormido e me alimentado direito também... ai e ainda pensaram que eu estava grávida... Será que meus colegas também vão pensar que estou grávida???
Aiiii não quero voltar pra essa Escola...
Mamãe ainda não voltou da aula, mas já deve estar chegando... papai hoje não está de serviço e tive de colocar o jantar dele e dos meus irmãos... O que me preocupa é que não disse as meninas, mas já tinha percebido esse vulto antes, principalmente aqui na entrada do beco onde moro, é como se ele estivesse de tocaia... Aii deve ser essa ansiedade que ando sentindo, ta me fazendo ver coisas... Imagina uma Tocaia! Por quê?

1º capítulo= O Primeiro dia de aula.













Um grupo de quatro  garotas, aproximava-se do portão da Escola, onde vários alunos aguardavam o toque de entrada.
Era o primeiro dia de aula e estar entre amigos trazia uma sensação boa de segurança. A ansiedade presente, era latente no ar, como pequenos choques e os alunos demonstravam o nervosismo de várias maneiras: falando alto, ficando mudo, andando de um lado pra o outro ou formando pequenos grupos de conhecidos. Neste dia o essencial era manter a calma e controlar  os ânimos...
As quatro garotas eram bem diferentes. Cada uma  com suas características físicas bem distintas e personalidades muito marcantes: a primeira era magra, a pele muito branca, cabelos castanhos esvoaçados e encaracolados com roupas muito usadas, a segunda era gordinha, cabelos ruivos e longos vestida com roupas muito compridas, a terceira era negra de cabelos crespos e estava vestida com roupas muito justas e a quarta era morena, tinha cabelos lisos muito  curtos e vestia roupas simples e descontraídas...
O grupo conversava animadamente, pois desde a 1ª série estudavam juntas. A garota magra era Júlia...
-Júlia, será que vamos ter todas as aulas?- perguntou a morena.
- Não me diga que você quer cabular aula logo no primeiro dia Flora!- ralhou a ruiva.
-Ai Gema... Quem me dera ter essa oportunidade... – respondeu Flora – estamos no centro da cidade! na Conde da Boa Vista! Tem muita coisa pra gente ver e fazer por aqui rsrsrs
-Olha não me venha com essa idéia de ficar andando por ai! – ralhou Gema.
- Pois é Flora, a Gema tem razão! Não andamos tanto pra ficar batendo perna por ai, gazeando aula!
- Falou Jú! – apoiou a garota negra – Afinal, temos muiitoo pra ver por aqui! – e rindo vez um gesto apontando um grupo de garotos que conversavam bem perto delas.
Júlia ignorou o comentário de Graça. Estava com saudades da Escola, dos Professores, dos colegas e de Lara.
- Pena que a Lara não está aqui com a gente... – murmurou saudosamente.
As outras amigas a olharam e concordaram, memeando a cabeça em consentimento. Lara era a amiga que faltava naquele grupo, era negra  como Graça, mas tinha olhos verdes, parecia uma boneca, estava com a mesma idade de Júlia, mas aparentava ser bem mais velha. Infelizmente, abandonara a escola pra viajar pro exterior... somente Júlia sabia o que realmente tinha acontecido com a amiga, as outras pensavam que ela tinha sido adotada.
- Trrrrrrrrrrrriiiiiiiiiiiimmmmmm!!
Pelo menos a correria era mesma que em sua outra escola, quando a companhia tocava. Os alunos entraram apressados procurando seus nomes nas portas das salas.
A escola era muito diferente do Costa Porto... Júlia observou a nova escola com interesse, enquanto sua amigas iam à frente.
- Pedro Augusto... Nova fase de minha vida! – murmurou Júlia distraída.
Avistou as colegas na porta da sala, lendo a lista de nomes muito preocupadas...
- Jú, você não ta aqui... – Falou Flora nervosa.
- Olhem direito meninas! Não é hora de brincadeiras... - e aproximando-se, começou a procurar seu nome na lista.
- Eu disse! Seu nome não tá na lista! – Flora começou a desesperar-se – Não podemos ficar separadas! Sempre estudamos juntas...
- Achei! – Gritou Graça – chamando as colegas pra porta da outra sala.
Júlia não queria piorar as coisas, procurou controlar o nervosismo e foi até outra sala, procurando na lista que Graça apontava. Seu nome estava no 1º ano B . Era verdade, ficaria separada de suas amigas...
- Ai Jú! O que vamos fazer sem você? – choramingou Gema.
Precisava esconder a decepção das amigas. Uma onda de terror queria tomá-la, mas não podia desesperar-se. Suas amigas estariam na sala ao lado...
- Vamos entrando pessoal! – O professor estava chamando pra sala, tentando organizar o tumulto em frente a sala. Parando junto das amigas perguntou:
- Já acharam a sala? Se for 1º ano A eu vou começar a aula, venham!
As garotas relutaram pra entrar, mas tinham de ir.
- Vão meninas! Eu vou ficar bem! Nos vemos no intervalo...
E encarando a entrada da sala, respirou fundo e entrou na sala do 1º ano B.

QUERIDO DIÁRIO
05/02/1990
Hoje foi o 1º dia de aula e detestei!!
Sabe o que aconteceu?
Me colocaram em outra sala, longe de minhas amigas...
No intervalo fui falar com o pessoal da secretaria e sabe o que disseram? Não fazemos mudanças!
O que vou fazer? Minhas amigas tão todas na outra sala, aiiii acho que a maré de azar voltou... Mas, pensei que só fosse durar até fazer 14 anos... depois desaparecia... Mas não, ta me acompanhando... Não bastou a viagem pra casa de Vó Eulália ter sido suspensa? Meu aniversário em janeiro foi horrível, mamãe não tinha dinheiro pra fazer nem um bolo e olha que papai ta trabalhando, mas a inflação come tudo! Tem tanto zero no dinheiro que resolveram mudar o nome dele e algumas notas tem que vir carimbadas... Papai ganha o salário, mas quando pega o dinheiro ele já não vale nada... E pra completar, ainda fico longe de minhas amigas, com um monte de mal encarados...
Nunca fiquei no fundo da sala, mais foi lá que sentei hoje, não queria ninguém me olhando...
Meu primeiro dia de aula foi um caos!!


A História de Júlia - II parte



Essa é a continuação do Livro A História de Júlia que será lançado no dia 05-09-2013 na Livraria Cultura do Shopping Rio Mar em Recife-PE.
Assim como o primeiro livro estarei publicando os capítulos aqui no Blog e, posteriormente , se Deus quiser lançarei como livro.

Júlia é uma adolescente oriunda de uma comunidade muito pobre de Recife- PE, o Coque. Ela enfrenta diversas situações típicas de um adolescente: indecisão, escolhas futuras, namoro, respeito aos pais, postura social, bulliyng... e também atípicas: tráfico de pessoas, drogas, pobreza, assassinato, roubo... Situações que levam o leitor a refletir sobre esses temas no momento em que Júlia escreve seu diário. A personagem principal, então representa um ser neutro, que roda por diversas situações, como uma das nossas várias consciências internas, onde escolhe caminhos diferentes da massa ao seu redor. A sutileza está presente na sua figura sonhadora meiga e, por vezes, comum de  adolescente.
Angela Lira