quarta-feira, 7 de agosto de 2013

2º capítulo = A Tocaia


















“Cabeça baixa!”
O medo e desespero cresciam em seu interior.
“Continue calada e quieta!”
Júlia podia sentir os olhares em sua direção... Estava sentada na última cadeira de sua fila, encostada na parede... Nunca precisara ficar tão isolada quanto naquele momento...
“Ele vai me ignorar!”
Uma garota bonita que estava sentada na primeira cadeira da fila levantou e foi à mesa do professor pegando o giz que ele oferecia.
“Consegui!”
Um mês. Júlia já estava na nova escola à um mês e seu pavor aumentava com o passar do tempo. Hoje quando o Professor de Matemática  convidara alguém pra ir ao quadro resolver  uma equação, a garota pode sentir o olhar de todos presentes em sua direção, ela mal respondia a chamada!
Durante as aulas os colegas a ignoravam, o que ela achava ótimo... Não queria ninguém zoando ou importunando. Durante os intervalos estava salva. Podia desfrutar da companhia de suas amigas e relaxava um pouco.
- Júlia! – chamou o professor
“ Essa não! Essa não!! Meu Deus!!”
As mãos pingavam de suor, podia sentir o rosto pegando fogo, do nada começou a sentir uma dor apertando seu coração e um mau estar tomando conta de seu corpo.
Levantou a cabeça devagar pra responder ao professor, mas sua garganta estava pesada, sua voz presa...
- Trrrrrrrrrriiiiiiimmmmm!!!
O toque de saída. A turma toda levantou ignorando o professor e saindo da sala. Júlia ainda estava sentada, tentado se recompor da crise de pânico. Sentiu o olhar firme do Professor em sua direção e procurou ignorar, guardando o material depressa e de cabeça baixa.
         Encontrou as amigas no portão:
         - ... e a Flora disse kkkk porque  você não responde Professor? Kkkk – caçoava Gema.
         - É mesmo!! Arf!! O Professor fica perguntando e quando respondo, ele pergunta de novo... Arf!!
         - Ele pergunta Flora, porque esse é um dos pontos da Filosofia... Não é mesmo Júlia? – indagou Graça querendo o apoio da amiga.
         - Eu... – Júlia parou de repente muito pálida e apoiando-se num canto da parede vomitou.
         - Júlia!! – gritaram as amigas desesperadas
         - Ta tudo bem eu só... – começou a falar antes de desmaiar.

         Júlia sentia-se zonza... percebeu que estava deitada e pode sentir um cheio forte de álcool em seu nariz.  Quando estava abrindo os olhos escutou alguém atrás da cadeira sussurrando:
         - Ela está grávida? – perguntava a voz. Aquilo fez Júlia não abrir os olhos logo, mas sentiu o rosto esquentar de tanta vergonha...
         - Não sei... essas meninas de hoje... – respondeu a outra pessoa sussurrando.
         - Chamem as amigas dela! Creio que ela já está melhor... pelo menos não está mais pálida...
         Júlia ouviu a porta bater e pensou em continuar ali de olhos fechados até as amigas voltarem, mas a pessoa que mandara chamar suas amigas, não se deixara enganar e sabia que ela estava acordada.
         - Pode abrir os olhos! Essas duas só servem pra fofocar... – Julia reconheceu a voz como senda Diretora da Escola, Dona Vera.
         Abriu os olhos e percebeu que estava na direção sentada num pequeno sofá. A diretora era uma mulher pequena e muito gorda, mas não era feia, era bonita e sorria pra Júlia com interesse.
         - O que... o que houve? Eu...
         - Bem, você desmaiou! Trouxemos você pra cá e tive de tirar suas amigas a força daqui...
         - Eu não estou grávida! – tratou logo de esclarecer preocupada.
         - Humm desculpe minhas colegas... Elas não sabem reconhecer certas coisas, nem certos limites... – e olhando Júlia com interesse, afirmou:
         - Tenho observado você esse mês... Desde que os professores começaram a falar de você na sala dos professores... Calada, isolada, mais muito inteligente...
         Júlia procurou uma posição mais confortável no sofá, pois só agora notara que estivera deitada nele, ou melhor, largada.  Arrumou a roupa e evitou olhar D. Vera.
         -... Mas no intervalo parece estar muito a vontade com suas amigas... - a diretora puxou uma cadeira e sentou de frente pra Júlia – não adianta disfarçar, você sente falta delas, contudo não posso mudar sua sala... Bem, como resolver essa situação?
         - Por que não posso ficar na mesma sala delas? – murmurou Júlia
         - Burocracia... Mas, talvez... – nesse momento a sala foi invadida pelas amigas de Júlia – É estou vendo que  você está melhor... Então, amanhã conversaremos... tenho umas coisas pra acertar na secretaria
         E saiu deixando as meninas a vontade. Júlia pegou a bolsa e acompanhou as amigas que não paravam de falar. Como dizer a elas que tinha desmaiado de medo? Tinha tanto medo da sala de aula que nem estava mais comendo. E a carta de Lara que recebera dizendo que estava muito mal, que tinha de trabalhar muito e mesmo tendo sangramentos, não  podia ir ao médico? A Senhora onde ela estava abrigada a tratava bem, mas tinha muito medo da polícia.... E conhecendo a amiga, Júlia sabia que Lara devia estar esforçando-se ao máximo pra não dar trabalho.
         Ainda estava zonza, mas a diretora só a liberou depois que comeu algo, ou melhor, suas amigas a obrigaram a engolir.
         Todos os dias saiam do Coque a pé em direção a escola que ficava no  Centro da cidade. Não era muito longe, apenas uma caminhada de 40 minutos, mas hoje levaria mais tempo... Júlia acompanhava os passos das amigas preocupada por já ter escurecido. Não tinham dinheiro para pagar a passagem. As meninas estavam caladas e olhavam assustadas pra todos os lados.
         Foi quando Júlia percebeu um vulto que as seguia ao longe... olhou pra Gema e de volta pra onde vira o vulto. A amiga também percebera... Nunca saíram tão tarde da escola, se Júlia não tivesse passado mal, já estariam em casa a muito tempo.
         Aceleraram os passos e avistaram a Avenida Agamenon Magalhães e o viaduto que separava o Coque da Ilha do Leite...  teriam de passar pelo viaduto pra chegar em casa, os carros passavam velozes de ambos os lados.
         Júlia orou em silêncio, pedindo forças a Deus e livramento. Aceleraram os passos e em pouco tempo atravessaram o viaduto rumo ao Coque. O pavor queria tomar conta dela novamente, sentiu a vista escurecendo, mas lutou contra aquela sensação. O vulto continuava seguindo as garotas e colocou a mão por baixo da camisa. Foi quando Júlia percebeu que na descida  do viaduto tinha uma viatura da polícia. As amigas também viram assim como o vulto que as perseguia. As meninas andaram na direção da viatura e quando olharam pra trás não avistaram mais ninguém. Passaram pelos policias aliviadas e seguiram pra suas casas.

QUERIDO DIÁRIO
08/03/1990
Que medo!! Fomos seguidas no final da aula e por pouco um homem, que Flora jura que tava armado... foi estranho, pois depois que orei, vimos uma viatura no início do viaduto e quando olhamos o vulto que nos seguia já tinha desaparecido... e a culpa foi minha...
Pois é! Hoje passei mal na saída da Escola e fui parar na direção... Calma, não foi castigo!
Fui socorrida pela diretora, ela parece ser muito simpática... Quase esqueci o pavor que tenho sentido de ir aquela Escola, por isso passei mal... quer dizer, e por não ter dormido e me alimentado direito também... ai e ainda pensaram que eu estava grávida... Será que meus colegas também vão pensar que estou grávida???
Aiiii não quero voltar pra essa Escola...
Mamãe ainda não voltou da aula, mas já deve estar chegando... papai hoje não está de serviço e tive de colocar o jantar dele e dos meus irmãos... O que me preocupa é que não disse as meninas, mas já tinha percebido esse vulto antes, principalmente aqui na entrada do beco onde moro, é como se ele estivesse de tocaia... Aii deve ser essa ansiedade que ando sentindo, ta me fazendo ver coisas... Imagina uma Tocaia! Por quê?

Um comentário:

Bia Suzena disse...

Oi, Angela.. to acompanhando a história, e tenho que dizer q está ótima!! vou adiantar minha leitura, pra poder acompanhar os posts!
Deus te abençoe!!