sábado, 26 de outubro de 2013

7º capítulo Desafios


                 “ Por que  querem que eu seja diferente?”

                Júlia estava sentada na calçada em frente a Escola, perto da Senhora que assava tapiocas. Nada estava sendo fácil na sua vida desde o ano passado: as dúvidas amorosas, adoção da Nila, perseguições, sumiço de Lara, a vida naquele quartinho tão apertado que um espirro acabava em confusão com seus irmãos e o acidente depois da briga ... Parecia que haviam cavado um poço, colocado ela dentro e estavam enterrando aos poucos.
                “ Minha vida nunca foi uma maravilha, mas agora, agora parece que tudo de ruim resolveu bater a minha porta de uma vez!”
Sentiu a garganta apertar e os olhos arderem com o choro que vinha, mas respirou e olhou para o Céu.
“ Deus, me dê forças! Não vou aguentar! Não consigo viver com tanta tristeza! Nunca mais tocar piano? O que vou fazer agora? Nem escrever direito posso, nem meu diário posso escrever direito e ainda tenho de escutar as cobranças, os julgamentos, as lições de moral. Tem hora que consigo calar, mas tem hora que falta pouco, muito pouco para explodir e mandar todo mundo ... O que eles querem? Tinha meus sonhos, não quero seguir um padrão ! Não quero ser mais uma na multidão! Quero ser eu mesma!”
“ Até dentro da Igreja existem pessoas que querem nos moldar do jeito delas, que sigamos os padrões delas e ousam dizer: a Bíblia fala isso ou aquilo, mas quando vou lá na Bíblia, não diz o que elas nos querem fazer crer. Parece que não somos ninguém, não podemos pensar diferente, agir de outra maneira... A coitada da Gema, ainda bem que ela falou com o Pastor. Ele foi legal, falou com o Eli, com os Pais dela e deu a maior prensa no Da-vi-son arff ele teve coragem de gritar na igreja o que fez com ela, se não fosse o Pastor... Agora está tudo bem, ela e o Eli voltaram e  vão casar daqui a dois anos. Nunca a vi tão sorridente, mas e quanto a mim? Fui julgada e condenada, a Sandra foi transferida, já tinha causado muitos problemas.”
Lembrou dos comentários da Sandra sobre sua aparência, as amigas comentavam que parecia uma freira, que era careta, que obedecia a tudo e todos parecendo uma robozinha. Lembrou dos apelidos  que lhe davam: Pollyana, Santinha, Cabeçuda, Vareta... Era como se só fosse isso, como se não pudesse mudar, sair daquele padrão e quando houve a briga e o acidente, todos fizeram cara de nossa o mundo está perdido , a Júlia está rebelde.
“ Não queria brigar, não briguei, mas quem quer me escutar? Não preciso fazer o que os outros fazem pra saber as consequências. É só observar os resultados e seguir os bons exemplos e sempre lembrar dos meus próprios erros...” Pensou olhando suas mãos e lembrando do que acontecera com Lara e Gema. “ Mas as vezes chego a duvidar do futuro, queria ser pianista, mas o corte em minhas mãos, esse acidente, tirou minhas chances. Meus pais não tem condições de pagar a cirurgia, vou tentar uma vaga no Hospital das Clínicas, porém ainda tem a fisioterapia... Mamãe falou que dificilmente teremos condições de pagar a passagem das seções, mesmo que de graça.”
 Sentiu as lágrimas forçando a saída e a garganta apertando de novo. Aquilo doía muito mais na alma do que no machucado em si. Os pontos tinham sido tirados, mas ainda não sentia os dedos. “ Meus pais são pobres, hoje enxergo com clareza porque eles sempre sorriam quando me perguntavam o que faria depois do 2º grau. Até o ano passado tinha certeza de quem eu era, o que queria ser, dos meus sentimentos. Mas de repente tudo começou a mudar, a ficar mais difícil, enfrentar coisas que meus pais resolviam por mim. Deixavam de comprar coisas pra eles, para comprar um caderno ou comida pra casa, mas porque se satisfazer com tão pouco? Por que justo agora que minha mãe decidiu estudar, meu pai fica implicando?” Repirou olhando a turma que começava a chegar e se amontoar na frente da Escola, nem sinal de suas amigas. Tinha vindo na frente com sua mãe para conversar com a D.  Vera e trazer o atestado médico, que justificavam as faltas.
“Até o ano passado meu pior problema era estar apaixonada por dois meninos, ser a única sem namorado e ser deferente de minhas amigas, mas agora surgem outros que tornam os outros pequenos, me fazendo ver o quanto eu era tola...” Sentia um amargo na boca, não conseguia comer, a tristeza impedia que engolisse qualquer coisa, só chorava, não sentia vontade de sair da cama, queria sumir! Mas sua mãe a obrigara a enfrentar a realidade, a forçara, a obrigara a sair da cama e parar de lamentar, a obrigara a ir até a Escola, falara com a Diretora e a deixara ali sozinha, com umas moedas para comer uma tapioca.
Passara por apelidos, pobreza, perseguição, timidez, zombaria, contudo o isolamento ao qual se entregara, depois da briga e do acidente, mexera com ela, a fizeram sair da redoma e perceber que não tinha chão sob seus pés, pois construíra seus 14 anos de vida, quase 15 , apenas sobre sonhos e fantasias em seu mundo interior.
O velho dilema sobre quem era, porque existia, qual seu futuro, ressurgiram com força total, quando seu maior sonho lhe foi tirado: ser pianista. A revolta as vezes tomava o lugar da tristeza, outras vezes a amargura a dominava.  Depois percebia que estava sendo cruel e a tristeza voltava mais forte. Ainda bem que desde o acidente não voltara a explodir, mesmo quando brigava com seus irmãos, conseguia controlar a raiva e calar. Passara a ignorar todos e tudo e mesmo num espaço mínimo, conseguia evitar o contato e a conversa, deitando e dormindo. Não tinham TV, apenas um radinho velho que sua mãe ouvia. Seus irmãos voltavam da Escola, sentavam a mesa, faziam as tarefas e iam assistir TV na casa de D. Quitéria. Depois voltavam e a encontravam deitada dormindo ou fingindo que dormia.
Foi quando sua mãe, conversando com seu pai, resumiu tudo que sentia e tomou a decisão  que resultou na sua volta a Escola:
- Ela parece uma panela de pressão prestes a explodir, mas vou fazer exatamente o que faço com a panela: tirar o ar debaixo de água fria! Você vai ver amanhã... – Júlia escutou calada, já deitada e não se mexeu.
A senhora da tapioca a chamou e entregou uma tapioca quentinha. Júlia olhava desanimada a mão da mulher estendida, sem vontade de comer:
- Sua mãe disse que se você não comer é para mandar um recado por suas amigas.- A garota encarou a Senhora, pegou a tapioca e deu uma mordida sem vontade, mas acabou comendo tudo. Estava faminta.
Foi quando terminou o lanche que avistou suas amigas. Olhou-as e, pela primeira vez na vida, não queria a companhia delas. Queria fugir, estar bem longe dali, muito longe!
- Oi Jú!! Que bom ter você de volta- cumprimentaram abraçando Júlia e entrando na Escola- estamos atradas!!- lembrou Flora
Júlia as deixou passar, sem responder nada e foi caminhando atrás, agarrada aos cadernos, caminhando sem pressa. Passava pelo mural quando algo lhe chamou a atenção.
“ Você quer ser alguém diferente?”
A frase chamou sua atenção.
“ Venha fazer parte  do grupo de teatro do Grêmio. Nós precisamos de seu talento.”
Algo nasceu dentro de toda tristeza que sentia. Uma pequena chama de esperança. Lembrou-se de D. Vera e sua recomendação para que participasse do grupo, mas ignorara aquela ideia e agora, lá estava a sua frente um novo convite.
“- é hoje... após a  4 ª aula. Será que vão me aceitar?” o medo apagou sua esperança que nascia “-não vou conseguir...”- mas a curiosidade a fez seguir em frente com o desafio .
“- Peraí os outros acham que não consigo, mas nunca tentei.”
E durante o período que a separava do desafio, ficou calada pensando, ora segura, ora ansiosa, ora medrosa. Não queria falar com ninguém, não queria falar sobre o assunto com suas amigas, mas como escapar na última aula sem elas verem? E se não desse tempo de voltar com elas? Sua mãe dependia dela para estar em casa . Seu coração acelerava, sentia um grande aperto no coração, o estomago chegava a doer de tanta angústia e ansiedade.
“Eu vou! Digo que preciso fazer algo... falar com D. Vera por exemplo, mas preciso ir! Preciso tentar! Ai! Não queria mentir, mas não quero falar... o que faço?”
Faltavam 10 minutos para o final da aula quando pegou um pedaço de papel e rabiscou com dificuldade por causa do ferimento.
“ Tenho de sair agora! me esperem no final da aula, por favor!”
Recolheu os livros, rapidamente e levantou depressa, entregando o bilhete ou melhor jogando o bilhete sobre a banca de Gema e saiu quase correndo da sala, sem esperar para ver os olhares atrás de si.

QUERIDO DIÁRIO
30/04/1990
           
            Estou escrevendo com dificuldade, minhas mãos ainda doem, mas não podia deixar de escrever o que aconteceu hoje.
            A minha vida está em polvorosa, mas o Brasil está pior! Está assustado!! 
          O novo Presidente assumiu e sua primeira medida foi congelar a nossa poupança! Muita gente que conheço está desesperada, pois tinha todas as suas economias aplicadas na poupança. A situação tá muito feia, nem sei se papai vai conseguir terminar a casa...
         Mas mudando de assunto, retornei hoje a escola. Foi difícil encarar todo mundo... contudo, hoje foi um dia de decisão! To no grupo de teatro da Escola e já falei pra minha mãe que deu a maior força, principalmente quando disse que tinha sido sugestão da Diretora.
          Tem vezes que parece que estamos no fundo do poço, então acontece algo muito ruim e percebemos que o poço pode ser mais profundo... Gosto muito do Cazuza, o cantor e tava  vendo uma reportagem sobre ele. Tem uma doença nova, chamam de AIDS e ele pegou. Tinha tudo pra desistir de viver e por certo tempo, pensei que seria seu fim, mas a força que ele tem passado agora é imensa. A vontade de superar e viver! Tenho de encontrar um pouco dessa força dentro de mim... Preciso me afastar da dor que me consome, mas como?

            Esse tem sido meu maior Desafio: encontrar um caminho.

2 comentários:

Andrea Colucci disse...

Olá vim hoje aqui pedir o seu voto, estou participando da seleção para ganhar o troféu
Você tbm poderá ganhar, entre este link e vote no meu blog, conto com o seu voto.beijo
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paula juliana espindola da silva disse...

Seguindo e Curtido!
Retribui?
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Bjus